segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O africano

Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.

(J.M.G. Le Clézio. O africano)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Queime depois de ler

Queime depois de ler (Burn after reading, EUA - 2008) é o longa seguinte ao mais que fantástico Onde os fracos não têm vez (No country for old men, EUA - 2007) dos irmãos Ethan e Joel Coen. E, fora o estilo dos irmãos, com câmeras posicionadas inusitadamente e violência típica, eles não guardam muitas semelhanças.
Queime depois de ler é jocoso. Zomba da ambição da classe média norte-americana, da paranóia, da idealização estética do corpo, da instituição do casamento, dos órgãos de inteligência, da moralidade fajuta. Ridiculariza quase tudo que toca.
Osbourne Cox (John Malkovich) é um agente da CIA que é demitido por "problemas com álcool", e resolve escrever suas memórias. Sua mulher Katie (Tilda Swinton) resolve então preparar o divórcio e assumir o caso com o casado policial canastrão Harry Pfarrer (George Clooney), que se orgulha de nunca ter usado sua arma nos 20 anos de profissão. Contudo, um CD com arquivos das memórias de Cox chegam às mãos dos amigos e funcionários de uma academia de ginástica Linda Litzke (Frances McDormand) e Chad Feldheimer (Brad Pitt). Então eles resolvem entrar em contato com o ex-agente da CIA para exigir dinheiro em troca dos arquivos, que pagaria o sonho plástico de quatro intervenções cirúrgicas de Linda, que, através de um site de relacionamentos, torna-se amante de Harry.
Assim, os Coen desenvolvem a trama baseados numa conspiração sobre nada. Todos os personagens - com exceção do bobo Chad - levam vidas duplas, e vão se embrenhando em paranóias de todo tipo. O tom é sempre de deboche, sem, contudo, fazer comédia pastelão. Os personagens são ridículos e nos fazem rir justamente por serem um pedaço de nós.
O filme funciona por não contar com grandes virtuosismos de direção ou elenco. Ele se baseia num conjunto de fatores. Clooney e Pitt, revelados na comédia em Onze homens e um segredo (Ocean's eleven, EUA - 2001) e suas seqüências, fazem piada da sua condição de galã. Clooney está hilário como o homem médio norte-americano, que demonstra toda sua virilidade com suas amantes e corridas. Tilda Swinton desconstrói a imagem da mulher do século 21, bem-sucedida, atraente e dona de si. A obsessão pela forma física perfeita de Frances McDormand misturada a seus encontros amorosos em sites de relacionamentos ganham a cereja do bolo no fim do longa.
Fica a cargo dos agentes da CIA, que monitoram toda a situação, a "lição" do desfecho inesperado e irônico. Os Coen nos ensinam a não nos levarmos tão a sério.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Téo e a gaivota

É de imaginar bobagem
Quando a gente liga na televisão
Toda dor repousa na vontade
Todo amor encontra sempre a solidão

Todos os encontros, todos os poemas
Manda me avisar, manda me avisar
Todos os embates, todos os dilemas
Manda me avisar, manda me avisar

Eu sei, todo ser humano
Ai ai
Pode ser um anjo

(Marcelo Camelo. Téo e a gaivota)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Barquinho

Meu barquinho encontrou uma tempestade.
As tempestades são cinza e jogam vento e água nos olhos. Não se pode enxergar. Há que se confiar na intuição.
As tempestades nos jogam de um lado para o outro, às vezes em círculos. Há que se valer do aprendizado adquirido nos carrosséis e rodas-gigantes.
As tempestades são barulhentas... Mal se ouve a própria voz interior.

domingo, 30 de novembro de 2008

Tous les garçons et les filles

Um pouquinho de melancolia na voz da Françoise Hardy, já que as lentes tingidas com drama e paixão têm se mostrado mais interessantes ultimamente.


Tous les garçons et les filles de mon âge
Se promènent dans la rue deux par deux
Tous les garçons et les filles de mon âge
Savent bien ce que c'est d'être heureux

Et les yeux dans les yeux, et la main dans la main
Ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
Oui, mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
Oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

Mes jours comme mes nuits
Sont en tous points pareils
Sans joies et pleins d'ennuis
Personne ne murmure "je t'aime" à mon oreille

Tous les garçons et les filles de mon âge
Font ensemble des projets d'avenir
Tous les garçons et les filles de mon âge
Savent très bien ce qu'aimer veut dire

Et les yeux dans les yeux, et la main dans la main
Ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
Oui, mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
Oui, mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

Mes jours comme mes nuits
Sont en tous points pareils
Sans joies et pleins d'ennuis
Oh! Quand donc pour moi brillera le soleil?

Comme les garçons et les filles de mon âge
Connaîtrais-je bientôt ce qu'est l'amour?
Comme les garçons et les filles de mon âge
Je me demande quand viendra le jour

Où les yeux dans ses yeux, et la main dans sa main
J'aurai le coeur heureux sans peur du lendemain
Le jour où je n'aurai plus du tout l'âme en peine
Le jour où moi aussi j'aurai quelqu'un qui m'aime

(Françoise Hardy & Roger Samyn. Tous les garçons et les filles)

sábado, 29 de novembro de 2008

Memórias do subsolo 3

As dignas formigas começaram pelo formigueiro e certamente acabarão por ele, o que confere grande honra à sua constância e caráter positivo. Mas o homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e, talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo. E - quem sabe? -, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa senão que dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos que o homem não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. (...) Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar de fato, nem sempre. E isto, está claro, é ridículo ao extremo. Numa palavra, o homem está arranjado de modo cômico; em tudo isto, provavelmente, há um trocadilho. Mas dois e dois são quatro é, apesar de tudo, algo totalmente insuportável.

(Fiódor Dostoiévski. Memórias do subsolo. pp. 46-47)

Pessoas boas e más

As pessoas boas dormem muito melhor à noite do que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais.

(Woody Allen)

domingo, 23 de novembro de 2008

Memórias do subsolo 2

Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvida, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana, com razão e com todo o coçar-se. E, embora a nossa vida, nessa manifestação, resulte muitas vezes em algo bem ignóbil, é sempre a vida e não a extração de uma raiz quadrada. Eu, por exemplo, quero viver muito naturalmente, para satisfazer toda a minha capacidade vital, e não apenas a minha capacidade racional, isto é, algo como a vigésima parte da minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer (algo, provavelmente, nunca chegará a saber; embora isto não constitua consolo, por que não expressá-lo?), enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo que nela existe de consciente e inconsciente, e, embora minta, continua vivendo.

(Fiódor Dostoiévski. Memórias do subsolo. p. 41)

sábado, 15 de novembro de 2008

Gostar

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter; ter deve ser a pior maneira de gostar.

(José Saramago)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Eternidade

Que seja eterno enquanto dure.

Memórias do subsolo

Dizei-me: de que pode falar um homem decente, com o máximo prazer?
Resposta: de si mesmo.
Então, também vou falar de mim.

(Fiódor Dostoiévski. Memórias do subsolo)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

As cidades invisíveis

(...) aquilo que ele procurava estava diante de si, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Você viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

(Italo Calvino. As cidades invisíveis. pp. 28-29)

100

Pela centésima vez escrevo alguma coisa aqui achando, pela centésima vez, que valha a pena alguém ler aquilo. Nem que "alguém" signifique os poucos que habitualmente vêm por outras vias (que não esta) dizer que pararam pra pensar, ao menos por uns segundos, no texto que postei.
Antes de criar este mundo paralelo, me perguntei muito se eu escreveria algo que alguém quisesse ler. Ou se alguém quisesse saber o que se passa na minha cabeça. Ou se o que anda tirando meu sono tira o de outrem. Ou se o que achei interessante, importa a outra pessoa.
Sinceramente, depois desta centena de vezes, ainda não tenho uma resposta. Às vezes acho que as minhas questões, simplesmente por serem humanas, são as questões de outros também. Mas algumas vezes acho que o aqui dentro não interessa a ninguém.
Mesmo assim, como disse Clarice (há uns posts atrás), quem escreve não quer mudar nada. Só se quer desabrochar mesmo...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Amizade nietzchiana

As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
(Friedrich Nietzche. Humano demasiado humano)

Nomes

Desde que me entendo por gente, me pergunto se uma cadeira é uma cadeira ou esse é só um nome que damos pra uma coisa no mundo. Até porque o que chamamos de cadeira os ingleses chamam chair, os espanhóis silla e os franceses chaise.
Ultimamente vejo que dar nome às coisas é mais fundamental do que se pensa. Nomear implica estar familiarizado com aquilo, conhecer. E também significa determinar, ou seja, dar aquele nome específico em detrimento de todos os outros nomes, é escolha.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Roda viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

(Chico Buarque. Roda viva)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Amor

O amor é fundamental. O amor é a primeira coisa. É o começo do resto.

(Fernanda Young)

Esquecer

Abençoados os que esquecem, pois aproveitam até mesmo seus equívocos.

(Friedrich Nietzsche)

Vaca amarela

Vaca amarela
Pulou a janela
Quem falar primeiro
Come toda a bosta dela.

(Domínio popular)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Vanilla sky

The chef prepares a special menu
For your delight, oh my
Tonight you fly so high up
In the vanilla sky
Your life is fine
It's sweet and sour
Unbearable great
You've got to learn
Every hour
You must appreciate.

This is your time,
This is your day
You've got it all
Don't blow it...away.

The chef prepares a special menu
For your delight, oh my
Tonight you fly so high up
In the vanilla sky
Melted tin beads
Cast you fourtune
In a glass of wine
Snail or fish,
Ballon or dolphin
See your silver shine

This is your time,
This is your day
You've got it all
Don't blow it...away.

(Paul McCartney. Vanilla sky)

domingo, 26 de outubro de 2008

Chambre vide

Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pèse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frère du silence
Reste encore
Reste auprès de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat

La nuit pèse
Il n'y a pas de papillon de nuit
Où sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil d'électricité
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frère du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprès de moi
Et c'est toi qui fait que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.

(Manuel Bandeira. Chambre vide)

Lagarta listada

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.

- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?

A moça se lembrava:
- A gente fica olhando...

A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:

- Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.

O rapaz concluiu:

- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.


(Manuel Bandeira. Namorados)

sábado, 25 de outubro de 2008

Poeminha do contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

(Mário Quintana. Poeminha do contra)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Desabrochar

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Datando

Já diria o Rafa: com a velocidade com que gira o mundo, já estamos datados.
Claro que as coisas têm uma causa, uma duração e (pelo menos) uma conseqüência, que estão todas fadadas a pertencer àquele instante em que ocorrem.
Mas há coisas que perpassam essa efemeridade. Não sei como explicar...
As coisas fluem; mas há as eternas.

domingo, 19 de outubro de 2008

Pescando

Então escrever é um modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente.

(Clarice Lispector. Água viva)

19 x 21

O fervilhamento no meio do grande fluxo de pessoas e paisagens, o delicioso mas deprimente anonimato no seio da multidão, a impossibilidade de assimilar todas as imagens e todas as informações, a afetação de tédio diante do desconhecido ou inesperado: são sensações como estas que caracterizam a 'modernidade', assim identificada pelo poeta e crítico francês Charles Baudelaire ainda na década de 1860.

(Rafael Cardoso. Formação da comunicação visual moderna. In: Uma introdução à história do design. p. 39)

sábado, 18 de outubro de 2008

Conto de fadas para mulheres do século 21

Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã.
Então, a rã pulou para o seu colo e disse: Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Mas, uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre...
E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sauté, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava:
"NEM FO...DEN...DO!"

(Luís Fernando Veríssimo. Conto de fadas para mulheres do século 21)

Souvenirs

With an envelope we'll enter buildings we might touch
I've got souvenirs but yesterday can't mean too much
Have we missed an opportunity?
Have we missed an opportunity?

Whispers, Chinese leaves a message, leaves a metaphor
For what once was gold and once was rich but now is poor
Have we missed an opportunity?
And the trees lean to lend
Can I fold you in fourteen ways to depend not defend?

(Architecture in Helsinki. Souvenirs)

Warhol

Dizem que o tempo muda as coisas, mas, na verdade, é você mesmo que tem de mudá-las.

Andy Warhol

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O mundo é um moinho

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

(Cartola. O mundo é um moinho)

Ode marítima

(...)
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
- O medo ancestral de se afastar e partir,
o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo -
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa,
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...
(...)

(Álvaro de Campos. Ode marítima)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sou triste

Uma vez me disseram que eu era triste. Como pôde me ler assim tão descaradamente? Não, não sou triste, você mal me conhece. Ou conhece pouco. Quem pensa que é?
Inexplicável e talvez terrivelmente, eu hoje vejo que sou triste. Porque algo sempre falta, porque há algo sempre por fazer, porque há alguém sempre por conhecer. Pode ser que eu espere coisas demais ou que nunca esteja satisfeita. Como pode ser que seja esse o barato de tudo: não ficar saciada e, mesmo assim, dizer que foi bacana, que está sendo bacana.
Vai saber...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Trauma

trauma
trau.ma sm (gr traûma) V traumatismo.

traumatismo
trau.ma.tis.mo sm (tráumato+ismo) Med 1 Estado mórbido resultante de um ferimento grave. 2 Grande abalo físico, moral ou mental; choque ou transtorno de onde se desenvolveu ou se pode desenvolver uma neurose. Abreviadamente: trauma.

(Michaelis - Moderno Dicionário da Língua Portuguesa)

Wonderwall

Today is gonna be the day
That they're gonna throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you gotta do
I don't believe that anybody
Feels the way I do
About you now

Backbeat the word is on the street
That the fire in your heart is out
I'm sure you've heard it all before
But you never really had a doubt
I don't believe that anybody
Feels the way I do
About you now

And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I'd like to say to you
But I don't know how

Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall

Today was gonna be the day
But they'll never throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you're not to do
I don't believe that anybody
Feels the way I do
About you now

And all the roads that lead you there were winding
And all the lights that light the way are blinding
There are many things that I'd like to say to you
But I don't know how

I said maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall

(Oasis. Wonderwall)

domingo, 12 de outubro de 2008

Entrelinhas

Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.

(Clarice Lispector)

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade. Ausência)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Peixes frescos

Recebi essa "fábula" por email. Achei importante parar pra pensar no que estamos querendo da vida.

Os japoneses sempre adoraram peixe fresco. Porém, as águas perto do Japão não produzem muitos peixes há décadas. Assim, para alimentar a sua população, os japoneses aumentaram o tamanho dos navios pesqueiros e começaram a pescar mais longe do que nunca. Quanto mais longe os pescadores iam, mais tempo levava para o peixe chegar. Se a viagem de volta levasse mais do que alguns dias, o peixe já não era mais fresco. E os japoneses não gostaram do gosto destes peixes.
Para resolver este problema, as empresas de pesca instalaram congeladores em seus barcos. Eles pescavam e congelavam os peixes em alto-mar. Os congeladores permitiram que os pesqueiros fossem mais longe e ficassem em alto mar por muito mais tempo. Os japoneses conseguiram notar a diferença entre peixe fresco e peixe congelado e, é claro, eles não gostaram do peixe congelado. Entretanto, o peixe congelado tornou os preços mais baixos.
Então, as empresas de pesca instalaram tanques de peixe nos navios pesqueiros. Eles podiam pescar e enfiar esses peixes nos tanques, como 'sardinhas'. Depois de certo tempo, pela falta de espaço, eles paravam de se debater e não se moviam mais. Eles chegavam vivos, porém cansados e abatidos. Infelizmente, os japoneses ainda podiam notar a diferença do gosto.
Por não se mexerem por dias, os peixes perdiam o gosto de frescor. Os consumidores japoneses preferiam o gosto de peixe fresco e não o gosto de peixe apático. Como os japoneses resolveram este problema? Como eles conseguiram trazer ao Japão peixes com gosto de puro frescor? Se você estivesse dando consultoria para a empresa de pesca, o que você recomendaria?
Para conservar o gosto de peixe fresco, as empresas de pesca japonesas ainda colocam os peixes dentro de tanques, nos seus barcos. Mas, eles também adicionam um pequeno tubarão em cada tanque. O tubarão come alguns peixes, mas a maioria dos peixes chega 'muito vivo'. E fresco no desembarque. Tudo porque os peixes são desafiados, lá nos tanques.
Moral da história: coloque um tubarão na sua vida e não pare de lutar nunca para chegar cada vez mais longe.

Será?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Renda-se

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

(Clarice Lispector)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A seta e o alvo

Eu falo de amor à vida, você de medo da morte
Eu falo da força do acaso e você de azar ou sorte
Eu ando num labirinto e você numa estrada em linha reta
Te chamo pra festa mas você só quer atingir sua meta

Sua meta é a seta no alvo
Mas o alvo na certa não te espera

Eu olho pro infinito e você de óculos escuros
Eu digo: "Te amo" e você só acredita quando eu juro
Eu lanço minha alma no espaço, você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro e você só lamenta não ser o que era
E o que era ?
Era a seta no alvo
Mas o alvo na certa não te espera

Eu grito por liberdade, você deixa a porta se fechar
Eu quero saber a verdade e você se preocupa em não se machucar
Eu corro todos os riscos, você diz que não tem mais vontade
Eu me ofereço inteiro, e você se satisfaz com metade

É a meta de uma seta no alvo
Mas o alvo na certa não te espera

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada

Sempre a meta de uma seta no alvo
Mas o alvo na certa não te espera

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada

(Paulinho Moska. A seta e o alvo)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Elegendo

Você votou ontem, ou não.
Você escolheu um candidato de confiança, ou não.
Você conhece esse candidato, ou não.
Você acompanha o trabalho de seu candidato eleito, ou não.
Você fica satisfeito, ou não.
Você cobra o cumprimento de promessas de campanha, ou não.
Você repete o erro, ou não.

domingo, 5 de outubro de 2008

Noite branca

Acabo de ler Noites brancas, de Dostoiévski, e, nesse mesmo final de semana, Paris viveu a Nuit Blanche (ou, noite branca).
O russo tem São Petersburgo como cenário e personagem de sua narrativa. No verão, a cidade vive um fenômeno conhecido como noite branca, em que o sol não se põe totalmente, deixando o céu noturno com um aspecto leitoso.
No caso parisiense, sua noite branca é um evento em que há shows, exposições, gente andando pelas ruas durante toda a noite. Mais ou menos como a Virada Cultural paulistana (que, segundo a senhorita Julia Caio, é melhor que a de Paris).
É interessante pensar na idéia de uma noite iluminada como noite branca...

sábado, 4 de outubro de 2008

Estranhar

Mas a vocês nós pedimos:
No que não é de estranhar
Descubram o que há de estranho!
No que parece normal
Vejam o que há de anormal!
No que parece explicado
Vejam quanto não se explica!
E o que parece comum
Vejam como é de espantar!
Na regra, vejam o abuso
E, onde o abuso apontar
Procurem remediar.

(Bertolt Brecht)

Não importa

Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim.
(Jean-Paul Sartre)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Mote

Deus faz surgir uma falta no homem,
quando quer arruinar por completo uma casa.

(Ésquilo. In: A República, de Platão)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A alma de Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(Fernando Pessoa. Não sei quantas almas tenho)

A alma de Clarice

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.
(Clarice Lispector)

Sentimental

Quem liberta o furacão?
Desamarra o mar da praia?
Desarruma o rumo, entorta o prumo,
Erra sem destino, amor?
Quem desata o céu da terra,
Desfere a flecha, rasga o ar?
Tire a luz da treva, razão aterra,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo
Sentimental
Quem me tira o chão dos pés?
E movimenta as mares, quem?
Semeia o pé de vento do pensamento,
Erra sem destino, amor?
Desintegra o grão na terra,
Desagrega o coração,
Tira o véu dos olhos,
Desperta os poros,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo apenas sendo
Sentimental
Quem desarrazoa, quem?
Abraça o rio, arrasta o raio, quem?
Avassala o medo, repete o erro,
Erra sem destino, amor?
Faz qualquer coisa de mim,
Quebra a pedra com seu sim,
Arrepia o pelo,
Derrete o gelo,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo sendo
Sentimental

(Lenine. Sentimental)



O quanto eu te falei que isso vai mudar
Motivo eu nunca dei
Você me avisar, me ensinar,
falar do que foi pra você,
Não vai me livrar de viver !

Quem é mais sentimental que eu?
Eu disse e nem assim se pôde evitar

De tanto eu te falar, você subverteu
O que era um sentimento e assim
Fez dele razão pra se perder
No abismo que é pensar e sentir

Ela é mais sentimental que eu!
Então fica bem
Se eu sofro um pouco mais

"Se ela te fala assim, com tantos rodeios,
é pra te seduzir
e te ver buscando o sentido
daquilo que você ouviria displicentemente.
Se ela te fosse direta, você a rejeitaria."

Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir... e rir.

(Rodrigo Amarante. Sentimental)



Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate e bate muito mais que sente
Fica doente mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto
Do sexo oposto outro outro alguém
Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje contei as estrelas
E a vida parece um filme
Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou se não, o destino não quis
Ah, eu ei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz
Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente, eu não fui feliz
Tenho dezesseis anos
Sou morena clara, atraente

(Chico Buarque. Sentimental)

Centenário de morte de Machado de Assis

Há exatos 100 anos morria Joaquim Maria Machado de Assis. Mulato, pobre, gago e epilético. Um dos maiores, e há quem diga, o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
Filho de pintor de paredes descendente de escravos alforriados e de lavadeira, passou a infância numa chácara na Ladeira Nova do Livramento, no Rio de Janeiro, onde a família vivia como agregada. Não freqüentou a escola regular. Aprendeu francês com a proprietária de uma padaria e, pelo que se tem notícia, aos 15 anos já dominava o idioma (chegou a traduzir Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, ainda na juventude). Estudou inglês e alemão como autodidata (traduziu o poema O corvo, de Edgar Allan Poe).
Machado de Assis começou a carreira como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, quando Manuel Antônio de Almeida era o diretor. Aos 15 anos estréia como escritor, publicando o poema Ela na revista Marmota Fluminense. Os jornais eram uma importante forma de circulação de cultura em sua época, e Machado se consolidou como cronista (é considerado o inventor do gênero), contista, crítico literário e poeta mesmo antes de se firmar como grande romancista. Sua estréia em livro ocorre em 1864, com Crisálidas (poesia).
À época de seu casamento com Carolina Augusta Xavier de Novais, em novembro de 1869, o escritor era um típico homem de letras bem-sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público. Em 1873, é nomeado primeiro oficial do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, dando-lhe a estabilidade na carreira burocrática que seria seu principal meio de subsistência.
Machado conciliou o funcionalismo público e o jornalismo por toda a sua vida. Eram os dois pilares sobre os quais o homem deveria se apoiar em sua opinião. Era um homem político, apesar de não partidário. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897. Explorou o romance psicológico, a ironia, o pessimismo, o universal. Não defendeu um ponto de vista: analisou vários.
Seus críticos o acusam de negligenciar questões nacionais importantes como o abolicionismo e a República. Porém, há quem defenda que Machado de Assis, com suas inúmeras inovações, foi o primeiro escritor brasileiro universal.

sábado, 27 de setembro de 2008

Clarice

Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros: e o âmago dos outros era eu.

(Clarice Lispector)

Sábado

Tinha tudo para ser um dia normal. Um sábado normal. Resolver obrigações, dar umas voltas, ir ao cinema, voltar para casa com sensação de dever cumprido e com questões leves (talvez até lúdicas na cabeça). Sentar aqui, ao fim do dia, e escrever sobre alguma dessas questões.
Mas o dever não foi cumprido. Houve conversa - até inusitada - como num talk show, diria um. Houve café, cigarros. Houve vidro estilhaçado. Tremedeira.
Cheguei em casa e tive um momento epifânico. Percebi que alguma coisa doía e, em seguida, senti medo. Medo da coisa que mais desejo agora. Como pode ser isso? Como é possível sentir medo daquilo que mais se quer?

Tudo por um plano alterado...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sentir tudo de todas as maneiras

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Quase nada

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada no meu caminho
Será um atalho?
Ou um desvio?
Um rio raso?
Um passo em falso?
Um prato fundo pra toda fome que há no mundo

Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro, madrugada
De nós dois não sei mais nada

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada no meu caminho
Será um atalho?
Ou um desvio?
Um rio raso?
Um passo em falso?
Um prato fundo pra toda fome que há no mundo

Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

(Zeca Baleiro. Quase nada)

domingo, 21 de setembro de 2008

Sobre digestão

Cada um sabe bem o aroma que desperta seu apetite.
Cada um sabe bem o sabor suculento que tem esse aroma.
Sabe bem como esse alimento desce pela garganta e atinge o estômago.
Sabe o peso que tem a massa ali sendo digerida.
Sabe os gases que ela provoca.
Sabe a náusea.
Sabe as cólicas.

E todo o mal cheiro da merda resultante.

Estou cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

(Álvaro de Campos. Estou cansado)

sábado, 20 de setembro de 2008

Provocativo 2

Não sou eu que estou melhor sem você.
É você que está pior sem mim.

Comida e sexo

Comer é uma necessidade vital. Sexo é uma necessidade vital. Além de vitais, são prazerosas também. Há quem diga que o homem, e só ele dentre os seres vivos, foi capaz de transformar as duas atividades mais essenciais para a sobrevivência em prazer: alimentar-se e reproduzir-se. Então, é perfeitamente possível (e, às vezes, desejável) que comamos e façamos sexo por deleite. Talvez daqui nasça (ou se explicite) o mal contemporâneo mais pertinente e, provavelmente, mais contundente, que seria a dificuldade de lidar com desejos que surgem de necessidades meramente fisiológicas.
Assim como a fome, não se pode evitar o tesão; apesar de que se possa reprimi-lo mais fácil e eficazmente. E há mesmo quem viva uma vida sem sexo, quando viver sem comida é impossível. Mas acho que o que inquieta mesmo é essa dualidade entre necessidade e prazer. Necessário aqui é o indispensável, o inevitável, que não pode ser diferente do que é. Do mesmo modo, entende-se por prazer a sensação agradável que resulta da atividade satisfeita, o divertimento, a alegria.
As duas atividades em questão, assim, são indispensáveis: a vida não pode ser sem elas. Qual o problema no divertir-se com elas? Nenhum. Ao contrário!
Na minha opinião, o problema é, na verdade, o não divertir-se. Mais: é o não poder divertir-se. Mais (e pior) ainda: sentir culpa por se divertir comendo e/ou fazendo sexo. Daí vêm os distúrbios de alimentação e os relacionamentos malogrados, as fontes das principais queixas ouvidas desde os botecos até os consultórios médicos, passando pelos salões de cabeleireiros e programas de televisão. São dietas, remédios, tratamentos, discussões, técnicas alternativas, mudanças de hábitos... tudo para aprender a sentir prazer! Tudo para conquistar a soberania sobre si mesmo, enquanto a resposta talvez não esteja em ganhar o controle, mas em perdê-lo...

Ilusão e sagrado

Nosso tempo, sem dúvida . . . prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser. . . O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado.
(Feuerbach. Prefácio à segunda edição de "A Essência do Cristianismo". In: DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Todo carnaval tem seu fim

Todo dia um Ninguém José acorda já deitado
Todo dia, ainda de pé, o Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco?
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz

(Marcelo Camelo. Todo carnaval tem seu fim)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira 2

Adaptar literatura para cinema já carrega um estigma negativo e é quase sempre uma tarefa malograda. Ainda mais se tratando de Saramago. Mas acho que o roteirista Don McKellar (O violino vermelho), que atua como o ladrão no filme, se saiu bem. Preservou passagens fundamentais (às vezes até reproduzindo diálogos fielmente), cortou o que seriam excessos para um filme: realmente adaptou o romance para o cinema.
A linguagem fragmentária e muitas vezes caótica de Meirelles também foi uma boa solução para fazer paralelo com o texto de Saramago. O português escreve de forma que o ritmo dos acontecimentos é refletido nas vírgulas e pontos, chegando a deixar faltar ar ao leitor quando a velocidade dos fatos é muito grande. O brasileiro usa uma seqüência de cenas rápidas e aparentemente desconexas para mostrar o surgimento da cegueira e como se alastrou. Isso se mantém até o confinamento dos "infectados" no manicômio estatal, quando as imagens, no caso de Meirelles, e as frases, no caso de Saramago, ficam mais lentas. É o momento em que as personagens deixam de contemplar o mal branco se difundindo passivamente e passam a atuar nas condições em que se encontram. Assim, escritor e cineasta simulam a sensação de que o novo (desconhecido e assustador) passa como um turbilhão diante dos olhos.
A própria escolha de Julianne Moore para viver a mulher do médico indica uma leitura acertada de Meirelles. Acho que como a maioria dos leitores, eu tinha imaginado a personagem como uma portuguesa típica. Mas, no filme, ela é branca e ninguém mais é tão branco, e isso é totalmente coerente com o fato de que ela é a única que não é vista. É só mais branco no branco da cegueira geral.
Outro ponto positivo do filme é o uso de imagens com contraste exagerado, com brilho quase ofuscante, com figuras desfocadas convivendo com as perfeitamente focadas. Os espelhos e vidros também foram bastante utilizados para criar imagens duplicadas, explicitando a fragilidade que pode ter nossa percepção visual do mundo. Tudo isso com câmeras postas em locais inusitados, closes intimistas, fotografia bem construída. Quadros mais delicados e bonitos do que chocantes.
Parece que Meirelles quis fazer um filme sobre não ver bastante apoiado no aspecto visual do cinema. Talvez tenha negligenciado um pouco a profundidade dos questionamentos da narrativa de Saramago, que penetra nas entranhas humanas. Mas aí vale lembrar que leituras são pessoais e que determinada linguagem tem exigências peculiares, diversas das de outros meios. Então, fica confirmado que é bacana ler um e ver outro.

Ensaio sobre a cegueira 1

A estréia do ano (pra mim e acho que pra muita gente) foi Ensaio sobre a cegueira (Blindness - Brasil, Japão e Canadá, 2008), do diretor brasileiro mais aclamado atualmente, Fernando Meirelles. O filme é baseado no romance homônimo do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura José Saramago, publicado em 1995.
Trata de uma cegueira branca que se alastra por contato direto com alguém "infectado". O primeiro cego (Yusuke Iseya) está parado em seu carro num farol vermelho de cruzamento. De repente, fica envolto num "mar de leite". A partir de então, todos os que tiveram contato com ele também mergulham nessa névoa espessa, incluindo o médico oftalmologista (Mark Ruffalo) que o atende e é o primeiro a relatar o caso às autoridades. No consultório, há uma "rapariga de óculos escuros" (Alice Braga), um rapazinho acompanhado da mãe (Mitchell Nye), um velho com uma venda preta (Danny Glover). Todos eles, mais a mulher do médico (Julianne Moore), que não chega a cegar, e a mulher do primeiro cego (Yoshino Kimura) vão formar uma espécie de família no manicômio onde serão trancados em quarentena. Ali, esses primeiros cegos vão recebendo mais e mais atingidos pelo mal branco até que todas as alas ficam lotadas, os banheiros estão imundos, a comida falta, os pudores estão diminuídos. Instaura-se um regime de exceção em que, ainda, aparece um cego que explora outros cegos (Gael García Bernal) e que conta com a ajuda de um cego de nascimento (Maury Chaykin).
Assim, a narrativa segue de forma a simular a nova sociedade que surgiria de um mundo onde todos são cegos. Os instintos se afloram, as necessidades mudam, a moral é reavaliada. O que há de mais primitivo no ser humano é trazido à tona e as pessoas são chamadas a tomar (novas) decisões. Como seria o mundo de cegos? Como se há de conhecer as coisas? Como seria enxergar, como a mulher do médico, quando ninguém mais enxerga?

domingo, 14 de setembro de 2008

Amigos de infância

Amigos geralmente são aquelas pessoas que possuem afinidades e que gostam de tê-las. Você diz que o cara é seu amigo porque gosta do mesmo tipo de música, porque curte ir ao estádio também, porque aprecia a comida daquele restaurante. Ou todas essas coisas juntas. Todas essas e muitas outras.
O problema é o amigo de infância. Ele não gosta do Chico como você, odeia futebol e não suporta comida japonesa. Ele não seguiu a mesma profissão que você, não se preocupa com o aquecimento global e, muitas vezes, nem mora na mesma cidade que você. Como raios vocês vão conversar?
Seria uma pergunta sem resposta, não fosse o fato de vocês terem crescido juntos. Ele estava lá quando você caiu do telhado tentando pegar uma bola, estava lá quando deu seu primeiro beijo, estava lá quando ficou de recuperação e não queria contar pros seus pais. Era ele sempre lá, talvez sem você nem se dar conta.
Amigos de infância não são amigos por afinidade. Às vezes o são, mas geralmente não. Eles são amigos porque estavam ali junto quando alguma coisa aconteceu, ou porque estudavam com você, ou porque moravam na sua rua. São amigos pelas circunstâncias, mas ficam pela vida inteira.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Eu amo tudo que foi

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

Com açúcar, com afeto

Passou-lhe pela cabeça: talvez aquele pudim de leite, receita da avó, o mantivesse em casa. Era tudo o que ela queria, tê-lo com ela. Seria o doce, disse olhando para o marido que sorria pendurado na parede.
Todos os dias ele saía operário e voltava vagabundo. A busca pelo pão era sempre interrompida por um amigo que o chamava para mais uma, e outra. E eram tantos os bares nesse caminho... Quaisquer motivos eram motivos para comemorar.
E as saias, quantas saias! Passando com a pele dourada e o frescor da brisa... E ela ali, preparando o jantar. O samba cessa alguma hora, é preciso feijão e, talvez, açúcar então.
Eis que volta à casa. Olhando para seu retrato, ela ouve novamente os pedidos de perdão. Quis brigar, mas não pôde. Foi esquentar seu prato.
(Baseado em Com açúcar, com afeto, de Chico Buarque. Na voz da Nara Leão ou da Fernanda Takai.)

11 de setembro

O dia 11 de setembro ficou eternizado em 2001 com os atentados terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono. Há, inclusive, quem diga que o século 21 começou nessa data. Talvez seja verdade.
Pra mim, o dia dos atentados foi também importante. Eu realmente era bem informada sobre o que andava acontecendo pelo mundo e gostava de política internacional. Mas, o que marcou mesmo, não foram os milhares de mortos, e sim a minha decisão de seguir a carreira diplomática. Sim, olhando para aqueles aviões entrando nas torres centenas de vezes! Achava que reunia características valiosas para a carreira e queria fazer alguma coisa. Uma pena que, anos depois, tenha mudado de idéia.
Contudo, de novo em um 11 de setembro, só que em 2006, minha vida mudou mais uma vez. De maneira mais sutil e vagarosa, é verdade. Mas o dia até contou com uma ajuda profética da "sorte de hoje" orkutiana!
Ontem, outra vez, vi mudanças. Mas essas precisam de distanciamento temporal pra serem comentadas...

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Por enquanto

Na voz da Cássia, por favor.


Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar,
Agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa

(Renato Russo. Por enquanto)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Pausa 2

É importante ressaltar que o passo seguinte à pausa é a ação.
Então, se o primeiro problema é reconhecer o momento para parar e contemplar, o segundo problema consiste em saber quando retomar o movimento, ou, algum movimento. E é preciso voltar a agir alguma hora.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.


(Carlos Drummond de Andrade. Hipótese)

domingo, 7 de setembro de 2008

Meu irmão é filho único

Meu irmão é filho único (Mio fratello è figlio unico - Itália/França, 2007), de Daniele Luchetti, traz a Itália dos anos 60 e 70 através dos irmãos Accio (Elio Germano) e Manrico (Ricardo Scamarcio).
Accio é o mais novo de três irmãos e filho de operário industrial. Começa o longa estudando num seminário, mas sua personalidade contestadora e um tanto rebelde já é imponente. Acaba desistindo da vida religiosa, porém, quando volta para casa, nem espaço para dormir tem mais. A falta de cama sinaliza para o fato do caçula ser um deslocado na família majoritariamante comunista. Tanto que acaba se juntando à Juventude Fascista.
Seu contraponto na vida é o irmão mais velho, Manrico. Ele é carismático, galanteador e luta pelas causas comunistas, e é assim que conhece Francesca (Diane Fleri), que se torna o terceiro vértice do triângulo.
O filme tem aquela comicidade tipicamente italiana, mas guarda certa melancolia. Luchetti se propõe a mostrar as bandeiras hasteadas - e queimadas - naquelas décadas, mas não quer defender ou acusar ninguém. Como quase todo bom filme italiano, fala sobre família. Daquele jeito que só as italianas conseguem ser.

sábado, 6 de setembro de 2008

The scientist

(...)
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
I'm coming back to the start


(Coldplay. The scientist)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Pausa

Estou quase chegando à conclusão de que essa história de saber viver não é a grande sacada da vida, como dizem as correntes de apresentações de slides, os best-sellers de auto-ajuda ou aquelas pessoas sempre dispostas a aconselhar. Não, não discordo de que toda essa coisa de viver hoje, apreciar as pequenas coisas bonitas, tornar o cotidiano mais leve, ter consigo as pessoas queridas, (e toda uma lista indizível) seja importante. Tudo isso contribui para que nossa balança tenha saldo positivo no fim do dia e, se não tiver, ainda é possível que se extraia um aprendizado dele.
Mas tenho prestado ao segundo dogma preferido dos já citados slides e best-sellers: o tempo. Só não gosto de como o tema é tratado. Não acho que o tempo faça milagres. Simplesmente você é que escolhe ficar sofrendo o resto da vida por uma decepção, perda ou frustração (que, no fundo, são o mesmo: as coisas não saíram como você queria), ou, ao contrário, em algum momento se cansa dessa dor e resolve continuar andando. Aí, amigo, o tempo não fez nada; você que fez.
Na verdade, tenho pensado no tempo não como vivência, mas como pausa. Não, o mundo não pára de girar quando bem entendemos, mas podemos (e devemos) congelar algumas partes por certos períodos. Esse intervalo serve para olhar pro acontecido e fechar um ciclo, para que outro possa ser iniciado. É só essa consciência de que um ciclo se fecha para que outro se abra que legitima o papel do tempo na nossa vida. Por isso a pausa.
Em geral, não lidamos bem com lacunas, pausas, brancos, vazios. São carregados de valores negativos. Mas permitem que sua atenção não esteja ocupada demais com outras atividades ou seres e possa reparar nos acontecimentos. De fato, nem acho que se deva ficar pensando nos problemas. Mas, se alguma coisa vai mal, pause esse setor. Olhe para a cena (ou cenas) congelada e se pergunte se alguma coisa pode ser feita com relação a ela. Não? Continue.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Correspondências

(...) não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias.
Depois de uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades, depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. (...) Para me adaptar ao que era inadaptável (...) tive que cortar meus aguilhões, cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. (...)
Não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
(Clarice Lispector. Correspondências)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Rezando

Se você pedisse paciência a Deus, Ele lhe daria paciência ou uma oportunidade de ser paciente? Se pedisse coragem, Ele lhe daria coragem ou uma chance de ser corajoso? Ainda, se pedisse força, Deus lhe daria força ou uma oportunidade de ser forte?

domingo, 31 de agosto de 2008

Quase

Ela é quase tudo o que sonhei
E eu sou quase aquilo que sempre evitei
E falhei, sim, falhei...

Quase um amor
Quase um caminho
Que me deixou
Quase sozinho
E quase que fiquei contente
E fui feliz pra sempre
No dia em que eu
Quase conquistei seu coração

Quase um amor
Quase um caminho
Que me deixou
Quase sozinho
E apesar de ter ficado
Quase um ano
Quase morto de paixão
Hoje já estou quase bão

(Pato Fu. Quase)

Voz

Mesmo ao som de canhões, tiros ou bombas, a voz humana é um som mais potente. Pode ser ouvida ainda que não se esteja gritando. Em volume corriqueiro, ou mesmo que seja só um suspiro. A voz humana deve ser ouvida principalmente se for um suspiro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Crônica de amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem noódio vocês combinam. Então?Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.
(Arnaldo Jabor. Crônica de amor)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Lemon tree

Está em cartaz Lemon tree (Israel/Alemanha/França, 2008), dirigido e produzido por Eran Riklis. A distribuidora optou por manter o título internacional do filme aqui no Brasil, mas talvez seja importante saber que esse também é o título internacional da canção popular que conhecemos por "Meu limão, meu limoeiro", que é apresentada já na primeira seqüência.
Quase surreal, a história é baseada no caso real de Salma Zidane (Hiam Abbas), uma palestina de meia-idade solitária que sobrevive das compotas feitas dos limões do pomar plantado por seu pai e que produz há 50 anos. Sua propriedade fica na Cisjordânia, mas bem ao lado da fronteira com Israel. Um dia, o Secretário de Defesa israelense (Doron Tavory) se torna seu vizinho e, com ele, câmeras de segurança, soldados, guaritas. Assim, os limoeiros de Salma se tornam uma ameaça à segurança de Israel (esse também é o primeiro nome do secretário), por poderem esconder terroristas e serem uma área de fácil aproximação da casa do israelense.
Salma vive sozinha: é viúva e possui três filhos, mas um trabalha nos EUA e as duas filhas são casadas. É um dos genros que indica o advogado (Ali Suliman) que se engaja na causa da defesa do pomar, que vira uma batalha judicial com repercussão na imprensa internacional.
O contraponto surpreendente ao conflito entre os dois é a mulher do secretário (Rona Lipaz-Michael), que se equilibra entre o casamento em vias de falência e a identificação com a vizinha.
Os limões são não só a fonte de renda da palestina, representam uma felicidade longínqua ligada ao pai. A poda do pomar significa não só a extinção do meio de sobrevivência de Salma, mas também a poda de uma extensão dela, como a amputação de um membro. Ele possui ligações emotivas fortes demais para que ela simplesmente aceite que seus limoeiros deixem de existir, ainda mais numa vida cheia de privações como na Cisjordânia. Os limões trazem essa metáfora amarga.
Bonito, delicado e triste.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

Não entendo

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: pelo menos entender que não entendo.


(Clarice Lispector)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

In a manner of speaking

In a manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words


O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words
That tell me everything


In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live
We live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified
So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you
I should find a way
To tell you everything
By saying nothing


O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words



(Nouvelle Vague. In a manner of speaking)

Provocativo

Ei, você!
Você faz o que fala?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O vencedor

Olha lá quem vem do lado oposto
e vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor
Olha você e diz que não
vive a esconder o coração
Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo,
mas não deixa ninguém ver
Por que será ?
Eu que nunca fui assim muito de ganhar,
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.
(Marcelo Camelo. O vencedor)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Bossa cinqüentenária 3

Ah!, se eu pudesse te buscar sorrindo
E lindo fosse o dia, como um dia foi
E indo nesse lindo, feito para nós dois
Pisando nisso tudo que se fez canção

Ah!, se eu pudesse te mostrar as flores
Que cantam suas cores para a manhã que nasce
Que cheiram no caminho quem falasse
As coisas mais bonitas para a manhã de sol

Ah!, se eu pudesse, no fim do caminho
Achar nosso barquinho e levá-lo ao mar
Ah!, se eu pudesse tanta poesia
Ah!, se eu pudesse, sempre, aquele dia

Ah!, se eu pudesse te buscar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar

(Roberto Menescal & Ronaldo Bôscoli. Ah, se eu pudesse)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ipês

Os ipês são as árvores mais bonitas que existem. Não sei bem se porque têm aquele tronco meio retorcido, com a casca bem rude e escura, e que, quando está florindo, faz um contraste maravilhoso com as flores delicadas de cores marcantes.
Tenho a sorte de morar perto de alguns deles, e de ver tantos outros no meu percurso cotidiano. Há os cor-de-rosa, os brancos e os amarelos, que florescem cronologicamente nesta exata ordem. Os ipês brancos são raridade por aqui, é verdade, mas vejo um da minha janela e ele tem flor há um mês. Os cor-de-rosa, visivelmente mais abundantes, forram o chão e salpicam o céu desde junho. Mas os meus preferidos - os amarelos - parecem estar tímidos este ano. Há apenas algumas flores neles. Parace que, mesmo ipês, que florescem nesta época, acharam este inverno triste demais para desabrochar sua exuberância completamente. Um daqueles fenômenos byronistas, suponho.
Felizmente, tenho uma orquídea em flor na sacada.

domingo, 17 de agosto de 2008

Esta velha

Quando não se tem como descrever coisas, melhor valer-se de poeta, desses profissionais, que conseguem maravilhas com palavras em determinadas lógicas. Hoje, ninguém melhor que Fernando Pessoa.



Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!


(Álvaro de Campos. Esta velha)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Sentimentos paradoxais 1

Às vezes a gente sente no ombro, de um lado, aquele anjinho alvo sussurrando bons sentimentos e, de outro, o diabinho querendo mandar a algum lugar feio todos esses bons sentimentos... Pra exemplificar um desses momentos, comparo essa música do Nando Reis cantada pela Cássia Eller com "Smile", da Lily Allen.


Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo
Nem mesmo porque eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é porque eu não acho o papel onde anotei o telefone que eu to precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é porque eu fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é porque tá muito frio,
Não é porque tá muito calor.

O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que com você daria certo
Juntos faríamos tantos planos,
Com você o meu mundo ficaria completo.
Eu vejo nossos filhos brincando,
E depois cresceriam e nos dariam os netos.

A fome que devora alguns milhões de brasileiros perto disso já não tem importância
A morte que nos toma a mãe insubstituível de repente dela já nem me lembro
A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido
As datas, fatos e aniversariantes passam sem deixar o menor vestígio
Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora pelo outro ouvido
Roubaram a carteira com meus documentos, aborrecimentos que eu já nem ligo.
Não é porque eu quis e eu não fiz.
Não é porque eu não fui eu não vou.

O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos porque o nosso mundo estaria completo
Eu vejo os nossos filhos brincando com seus filhos que depois nos trariam bisnetos.

Não é porque eu sei que ela não virá que eu não vejo a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la mesmo que não tenha a mínima lógica nesse raciocínio
Não é que eu esteja procurando o infinito a sorte pra andar comigo
Se a fé remove até montanhas o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando.
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que sinto e o que eu sou.

O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas pois isso não é mais secreto
Juntos morreríamos pois nos amamos e de nós o mundo ficaria deserto.
Eu vejo nossos filhos lembrando com seus filhos que já teriam seus netos.

(Nando Reis. Meu mundo ficaria completo (Com você))

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Sobre anjos 2

Sou uma pessoa que acredita no valor das pequenas coisas, que gosta de somar grão a grão e ver um todo bonito e consistente se formar. O grande barato, quase sempre, está no pequeno (com o perdão do trocadilho).
Recentemente, voltei a olhar para as dimensões mais vultosas dos atos. O caso é que, quando nos deparamos com a doação, freqüentemente ficamos admirados com o desprendimento com que certas ações são praticadas. E essas ações, quando provenientes reiteradamente de determinada pessoa, chegam até a criar uma expectativa de que ela vai sempre agir assim, com generosidade perene.
E eis que a Vida vem e prega mais uma de suas peças. Não, a pessoa de coração enorme não deixa de estar aberta e disposta a se doar. Porém, a Vida pede mais. Faz um pedido daqueles, dos grandes. Anjos não titubeiam: deve abrir mão de parte de si mesma. No mais primitivo dos sentidos que a frase possa assumir.
Além de deixar explicitada minha admiração incondicional a alguém assim, quero acalmar os aflitos com tal pedido da senhora Vida. Acho que, como tenho o prazer da convivência de uma entidade dessas, entendi o propósito da ação. Há coisas que não se explicam; você só sabe que tem que fazer. E, doar-se, literalmente, é apenas estar para sempre ali, junto ao ser amado.
Garanto: ela faria mil vezes.

sábado, 9 de agosto de 2008

Mudando de casa

Mudar de casa neste mundo aqui fora quase sempre significa mudar a casa neste mundo aqui dentro. No caso específico desta que vos fala, mudo de casa hoje como reflexo de algumas mudanças exigidas por furacões passados, mas tenho certeza de que alguns ainda hão de vir como conseqüência dessa mudança. Seja como for, citando o poeta, "é melhor ser alegre que ser triste", então o que vale mesmo é jogar a bola pra frente, de preferência, pra cima.

Mas JuCa, volta logo da França!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sobre impotência

Meditando sobre impotência... Não, não a sexual. Bom, pensando melhor, até ela. Qualquer e todo tipo de impotência.
O que significa não conseguir?
Começando do começo. Quais os fatores que levam alguém a declarar a impossibilidade de realizar algo? Falta de habilidade/capacidade? Descrença? Medo? Saramago diz que o medo é o maior justificador de quaisquer atos.
Continuo meditando e aceito opiniões...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Epígrafe

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.



(Epígrafe do romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Bossa cinqüentenária 2

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões no gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais


Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
É disconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos dezembros
Mas quando eu me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero
Nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais


(Tom Jobim & Chico Buarque. Anos dourados)

Bossa cinqüentenária 1

Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai

Mas ah se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim
Colado assim
Calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim

(Vinícius de Morais & Tom Jobim. Chega de saudade)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Quando estou amando

Ontem vi Quando estou amando (Quand j'étais chanteur, França - 2006), de Xavier Giannoli. Gérard Depardieu é Alain Moreau, um cantor galanteador que possui certa fama pelos 20 anos de carreira cantando em pequenos bailes. Conhece Marion (Cécile de France), uma corretora de imóveis recém-divorciada, através de um amigo em uma de suas apresentações. Os dois passam uma noite juntos mas, apesar do distanciamento de gerações, são aproximados pelo recomeço que a vida impõe a cada um.
O filme tem recebido vários elogios da crítica não por sua história, que poderia ser a de qualquer um, mas pelas interpretações de Depardieu e Cécile. Ele é realmente um grande ator, que torna um cantor de bailes que beira o cafona (se não o alcança) um homem de meia-idade apaixonado pelo que faz e indigno de pena. Além disso, Cécile o complementa na medida.
Depardieu, que já viveu Rodin, Balzac e Obélix, ajudou Giannoli a escolher as canções (que ele mesmo interpreta no filme) que carregam a atmosfera nostálgica da narrativa. Tudo são camisas de seda, capas de CD pra lá de bregas, antigas músicas açucaradas, casais rodopiando nos salões. O longa tinha tudo para ser sobre viver de passado. Porém, fala de futuro. Os dois personagens principais mergulham (e levam junto o espectador) no universo dos antigos bailes regados a romantismo para descobrirem o que realmente importa a eles e que vale a pena recomeçar.
Um filme para ser visto sem medo de ser ridiculamente romântico.

domingo, 3 de agosto de 2008

Epístola aos blogueiros

(Texto de Fabrício Carpinejar publicado hoje no Caderno de Cultura d'O Estado de São Paulo)
Nunca invejei Santo Agostinho pela sua salvação. Não conseguiria repeti-lo. Guarda-se a impressão de que ele quis se livrar da danação no ombro do Pai. Olhando de perto, ele foi mais corajoso do que conformista. Antecipou o inferno. Não esperou para sofrer na outra dimensão. Pagou à vista o inferno. Converter não é encontrar Deus, é encontrar o inferno.
Blog é prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Em vez de ser conhecido, corresponde a mergulho no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração.
Indica a fronteira entre o amador e o escritor, entre o diletante e o renitente, entre o curioso e quem não consegue se afastar da compulsão narrativa. O amador cansará nos primeiros meses. Vai deduzir que não vale a pena o trabalho, que ninguém lê. Uma tortura postar textos durante três meses e não receber nenhum comentário. São os 40 dias do deserto, com as tentações sobrevoando o teclado. "Então Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo demônio e, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome" (Evangelho de Mateus, capítulo 4, versículo 1).
Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagem para os amigos; manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um Spam. Recebe avisos ásperos: "não o conheço" ou "favor me excluir da lista". A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio à marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.
Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.
Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás. Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça.
Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao criar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos emails falsos. Hora do soro!
Escrever na rede é uma tentativa de suicídio, chamar atenção dos outros para a nossa carência. Um aviso escandaloso da nossa fragilidade. Pensando bem: publicar é um suicídio frustrado. Quando o ímpeto de sair da vida é usado para entender a própria vida e as dificulades enfrentadas pelos demais autores.
Uma das virtudes do blog é sua provação. Agüentar os contratempos no osso. Ver que não é um elogio que o fará continuar, muito menos uma crítica que o fará desistir. Que nascer para a letra é amar a insuficiência. O escritor se sucede progressivamente. Melhora. Estar sozinho é ainda estar povoado. Povoado por dentro. Pelos personagens, pelas histórias familiares, pela observação aprofundada dos seus arredores. Só quem foi fantasma um dia poderá alimentar seus fantasmas. Procura-se um reconhecimento externo e encontra-se algo mais preciso: a afirmação pessoal na persistência. Procura-se lá fora o que já se tinha. Como diz Santo Agorstinho: "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim".
O esforço de sair da solidão ajuda curiosamente a fortalecê-la. Compreende que não escreve para completar um diário, ou para repetir sua história, se fosse assim não contaria com assunto para atualização semanal, mesmo que desfrutasse uma trajetória acidentada e heróica como a de Hemingway. Escreve para duvidar e se banhar na luminosidade da confusão biográfica.
Um texto postado é como um texto impresso. Mais fácil para localizar os erros, os tropeços, formar distanciamento. Confere uma maioridade na escrita, reforça uma postura profissional de jardinar e cuidar do verbo, de alterar a prosa e a poesia em nome da transparência e da fluidez. Há a formação gradual de uma assinatura, transmitindo uma visão de ser responsável por aquilo que se diz, de assumir honestamente as dívidas da boca. Organiza-se o rascunho, que é bem mais duro do que redigi-lo.
Não é fácil a rotina da blogosfera. Terá que superar vários fins, várias negativas, várias mortes. Superar a expectativa de fama pelo prazer do texto. Por isso, o prazer necessita ser mais forte do que a dor. O masoquista é o que gosta mais do sofrimento do que da carícia. O blogueiro é o que esquece a ferida pela alegria. A diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta: o blog é uma gaveta aberta.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A visão de morte de Miguilim

Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem - debaixo da exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então - ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam... Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! - maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não agüentava... Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de, amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.


(João Guimarães Rosa. Trecho de Campo Geral, in Manuelzão e Miguilim)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Bronca

Levei uma bronca hoje por me apegar a detalhes e perder a noção do todo. O caso foi por eu enxergar apenas os espinhos das rosas, em vez de admirar sua beleza e alegrar meu dia por recebê-las.
Tudo bem que chegou anos atrasado - sim, anos! - mas um puxão de orelhas vindo de quem conhece a gente deve ser sempre levado em consideração. Ainda mais se tratando do mais que querido Fabricio Ribeiro.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

As coisas pequenas

Ultimamente tenho ouvido muita gente reclamando a bendita felicidade. O emprego dos sonhos, o grande amor, a viagem àquele lugar especial. E como é saboroso quando as preces são atendidas. E quando são atendidas e trazem um bônus? Uh-lá-lá!
É sempre aquela esperança do arrebatamento. Não queremos que seja bom, queremos o melhor! Que seja fantástico, estupendo, avassalador! Desejamos o inebriar-se e o abandono...
A vida virou uma seqüência cinematográfica em que a adrenalina tem que ser constante e os beijos apaixonados exigem uma paisagem paradisíaca. Me pergunto onde fica aquela história de ser feliz com as pequenas coisas. Um pôr-do-sol, um abraço amigo, uma flor que se abre desafiando o asfalto. Será que são realmente capazes de nos trazer felicidade?
Talvez sim. Isso se estivermos preparados a nos deparar com tais eventos e realmente apreciá-los. Será?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Futuros amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(Chico Buarque. Futuros amantes)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Perfil 2

Além de sermos bons - os melhores - ainda temos que ser os primeiros, ou às vezes mais, os únicos. Nascer primeiro significa que papai e mamãe não precisariam do segundo, então por que raios tiveram? E o que dizer sobre aquele amor que, não contente em ter você, quis amigos, família e - pasmem! - outro amor? Cheguemos então ao ápice do absurdo: não ser o primeiro. Não basta ser reprovado, trocado, frustrado, há alguém melhor! Uma opção primeira, um desejo primeiro. Assim, o segundo lugar sente sempre o gosto amargo de não chegar lá.
Ser a segunda opção não é o sonho de ninguém. É preferível não conseguir, não ter competência, não ter chance. Mas - fazer o quê? - é uma situação com que se tem que lidar. Talvez o pensamento mais confortável seja o de admirar o oponente, o ostensivo primeiro lugar, e, fazendo isso, cheguei à conclusão:
Não, não me importo em ser a segunda opção. Desde que a primeira seja extraordinariamente fantástica.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Perfil 1

O meu mundo é diferente. É todo e só meu. Não está aberto à visitação, já que possui fosso, catapulta e dragão. Dá até pra ver o que acontece logo ali, mas aqui é bem mais interessante. Tem boa música, boa comida, boa leitura e até boa mobília. A companhia é ótima: seleta, claro. Os amigos visitam com certa freqüência, e amo todos eles por se deslocarem até aqui, nem que seja por alguns instantes.
Sorte mesmo é ter esta vitrine azul-celeste aqui. Ah, a vitrine, fantástica invenção do século 19. Sob medida para nos manter próximos dos objetos de desejo e convenientemente apartados deles para que não se tornem um pedaço de nós. Conheço os amigos daqui tanto quanto eles me conhecem, ou eu conheço a mim mesma. Os meus gostos musicais, meus filmes preferidos, o que faço para viver. Dados cuidadosamente selecionados para saberem de mim, nem mais, nem menos do que aí está. E como é bom saber que alguém tem uma porcentagem incrível de interesses azul-celeste que eu também tenho! Como temos estilo! Como temos personalidade! Como temos bom-gosto!
Ops... Meu mundo é igual ao seu.


(Texto escrito em 24.05.2008 para o meu perfil do Orkut e o primeiro dos responsáveis por plantar a sementinha desse blog...)

terça-feira, 22 de julho de 2008

O caçador de pipas

Passei a semana passada "devorando" o romance best-seller de Khaled Hosseini. É uma leitura fácil, em que as palavras vão sendo absorvidas rapidamente. Consegue, porém, não ser tão superficial. O autor descreve uma Cabul de antes das ocupações russa, da Aliança do Norte e do Talibã, sem que a cidade se torne o foco da narrativa. Ao contrário, ela serve de palco para a infância feliz mas conflituosa de Amir. Ele luta pelo amor do pai (sua mãe morreu durante o parto), enquanto passa os dias brincando com o filho de Ali, empregado da casa, o menino de lábio leporino e cara redonda de boneca chinesa, Hassan.
Amir lê histórias para Hassan, que é analfabeto como o pai, e, um dia, passa a escrevê-las também. Os dois são apaixonados por pipas, que movimentam todos os meninos durante o inverno em Cabul. Em um desses invernos, Amir está disposto a ganhar o campeonato para impressionar o pai, conquistar sua admiração. Vence; e Hassan, o melhor caçador de pipas de toda a cidade, vai atrás da última pipa a cair para dá-la como troféu a Amir. "Por você, faria isso mil vezes".
O próprio Amir, já adulto, contando suas memórias em primeira pessoa, diz que aquele dia de inverno definiu o que seria ele por todo o resto de sua vida. E com razão. Todas as suas angústias, seus desejos, seus medos foram regidos pelas conseqüências daquele dia.
O caçador de pipas, o romance, fala sobre lealdade, coragem e covardia, pais e filhos, honra, religião, culpa e redenção. O filme (The kite runner - EUA, 2007) de Marc Forster, contudo, parece mudar esse aspecto.
Há sempre as tradicionais ressalvas a adaptações cinematográficas de romances. É preciso observar que se tratam, sim, de adaptações. Mas, na minha opinião, Forster modificou o caráter da história. Em primeiro lugar, a supressão das narrações de Amir fazem falta para a compreensão dos conflitos internos do personagem que, de outra forma, não são tão bem explicitados. Essa falta de profundidade nesses conflitos levam o espectador a permanecer apenas nas aparências das coisas, o que quase transforma o longa em uma história de refugiados de guerra. Pelo filme, não se percebe a tamanha lealdade de Hassan por Amir. Não é dada a dimensão das relações entre Amir e o pai e Hassan e Ali (que, à primeira vista, são patrões e empregados, respectivamente). Não se explicita os reais motivos que levam Amir devolta a Cabul, além, é claro, de resgatar um menino.
É importante ressaltar que o longa-metragem tem, em si, muitas qualidades. A fotografia é muito bonita e a condensação de alguns pontos da narrativa foi bem resolvida. A meu ver, seu escorregão ficou por conta do caráter geral da história, que foi bastante modificado. Falta ao filme o que o romance tem de sobra: detalhes que, sob um olhar mais atento, são primordiais. A boa notícia é que, assim, pode-se ver o longa antes e, ainda assim, descobrir muitas outras coisas ao ler o livro. Este, sim, imperdível.

sábado, 19 de julho de 2008

Agradeça

Minha mãe, não só por ser mãe, creio eu, é um ser visionário. Ela tem o costume de dar presentes de Ano Novo: coisinhas simples porém emblemáticas para transmitir votos para o ano seguinte ou meramente para fazer pensar em algo.
No final de 2007, eu e umas criaturinhas muito queridas ganhamos dela camisetas brancas com verbos no imperativo escritos em cores com glitter. Em sua ingenuidade, escolheu quem ficaria com o quê pelas cores preferidas de cada uma. Vermelho, azul, rosa, verde... Ninguém gostava de amarelo, então fiquei eu com ela.
Mal sabia minha mãe que o critério adotado correspondia a um propósito bem maior. "Ame", "sonhe", "brilhe", "acredite"; foram todas parar nas mãos certas. Por um momento, fiquei achando ser uma tremenda ironia do destino receber a "agradeça". Mas, pensando um pouco, não poderia ter outra.
Agradeço, hoje em particular, dentre tantas outras coisas, às pessoas queridas que me ofereceram colo, ombro, risos, elogios, companhia para a caminhada, licença poética... Todo o carinho que, às vezes, nem imaginava que receberia. Sem vocês, não seria a mesma coisa.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sobre anjos

Existem pessoas na vida que são como aquelas criaturas que costumamos chamar anjos. Prefiro acreditar que algumas entidades recebem o nome de anjos por causa dessas pessoas.
Como reconhecer uma? Bom, no meu caso, posso pensar em alguém e tentar responder.
Ela tem sempre um olhar que dispensa palavras. Sabe versinhos e frases milagrosos. Cria metáforas pra explicar as coisas mais indescritíveis. Consegue rir e chorar da mesma coisa. Encoraja todas aquelas pequenas loucuras que acabam nos trazendo alegrias. Mudou vários conceitos até então sólidos. Me ensinou a ficar de pé nos cavalinhos do carrossel. Nunca me disse isso, mas estava ali em todas as horas, boas ou más. Tem realmente o espírito dos velhos marinheiros, que saem por aí desbravando os mares com a coragem que só os que acreditam em algo maior têm.
Acabei de perceber que não importa o quanto eu tente, não dá pra explicar como reconhecer uma pessoa dessas. Só dá pra sentir. E agradecer. Agradecer por ter uma pessoa assim na vida e não conseguir descrever como ela enxerga, como ela entende, como ela completa.
"Por você, faria isso mil vezes."

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Recordo ainda

Mário Quintana falando do paraíso perdido. A primavera de atmosfera reconfortante e as novidades do mundo em descoberta vistas da senilidade de árvores retorcidas.

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

(Mário Quintana. Recordo ainda)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Amor é coisa que se empresta

Quando disse que o amor era coisa que tínhamos e dávamos, cabendo ao destinatário aceitá-lo ou não, o querido Rafael Craice (o padrinho) me corrigiu defendendo que o amor se empresta. Segundo ele, cultivamos o amor e o oferecemos emprestado; a pessoa aceita ou não. Mais: se temos pouco, pouco amor temos a oferecer e mais queremos emprestado. Se temos muito, muito podemos oferecer e pouco pedimos emprestado.
Concordo, Rafa.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O escafandro e a borboleta

Acaba de ser lançado O escafandro e a borboleta (Le scaphandre et le papillon - França/EUA, 2007), do diretor Julian Schnabel. O roteiro de Ronald Harwood é baseado no livro homônimo de Jean-Dominique Bauby, jornalista e editor francês da revista Elle. Aos 43 anos, Bauby sofre um acidente vascular cerebral que deixa todo seu corpo, com exceção de seu olho esquerdo, imobilizado, apesar de ainda gozar de plenas faculdades mentais. Ele padece de uma condição rara conhecida como Síndrome Locked-In. Apesar disso, Bauby dita, letra a letra, seu Le scaphandre et le papillon piscando o olho esquerdo quando a pessoa que toma suas notas diz a letra requerida.
O filme (bem como o livro) narra as sensações de Jean-Dominique preso a seu próprio corpo. A princípio, o espectador é convidado a experimentar a angústia desde o lado de dentro. As primeiras cenas nos fazem ouvir a voz interior do jornalista e a câmera toma o lugar de seu olho que é a única ligação com o exterior. Estamos presos em seu escafandro também. À medida que Bauby vai se familiarizando com sua nova condição e aprendendo a lidar com ela, também o espectador vai saindo de dentro dele e o foco passa às relações com o mundo. Então ele decide ditar seu livro, que se tornou sua forma de sair do casulo. Bauby faleceu de pneumonia 10 dias após a publicação de Le scaphandre et le papillon.

O jornalista levanta a questão de como se dá a relação entre interior e exterior. Se o mundo é o que percebemos dele através dos cinco sentidos e como agimos nele, o que dizer de uma experiência em que o ambiente é detectado apenas pela visão e pela audição e em que não se pode atuar? Estímulos ópticos e sonoros fazem pessoas, objetos e idéias entrarem, mas dificilmente se consegue fazer coisas saírem. Bauby dita suas memórias do cárcere como forma de se fazer ouvir, mas será que seria necessário se ver impossibilitado para querer agir no mundo? Seria preciso se ver preso consigo mesmo, condenado à solidão interior, para (re)avaliar conceitos e posturas em relação aos outros?
Há muitos escafandros vestindo poucos escafandristas de fato, já que estes têm como objetivo desbravar águas profundas, desconhecidas, obscuras.