quinta-feira, 31 de julho de 2008

Bronca

Levei uma bronca hoje por me apegar a detalhes e perder a noção do todo. O caso foi por eu enxergar apenas os espinhos das rosas, em vez de admirar sua beleza e alegrar meu dia por recebê-las.
Tudo bem que chegou anos atrasado - sim, anos! - mas um puxão de orelhas vindo de quem conhece a gente deve ser sempre levado em consideração. Ainda mais se tratando do mais que querido Fabricio Ribeiro.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

As coisas pequenas

Ultimamente tenho ouvido muita gente reclamando a bendita felicidade. O emprego dos sonhos, o grande amor, a viagem àquele lugar especial. E como é saboroso quando as preces são atendidas. E quando são atendidas e trazem um bônus? Uh-lá-lá!
É sempre aquela esperança do arrebatamento. Não queremos que seja bom, queremos o melhor! Que seja fantástico, estupendo, avassalador! Desejamos o inebriar-se e o abandono...
A vida virou uma seqüência cinematográfica em que a adrenalina tem que ser constante e os beijos apaixonados exigem uma paisagem paradisíaca. Me pergunto onde fica aquela história de ser feliz com as pequenas coisas. Um pôr-do-sol, um abraço amigo, uma flor que se abre desafiando o asfalto. Será que são realmente capazes de nos trazer felicidade?
Talvez sim. Isso se estivermos preparados a nos deparar com tais eventos e realmente apreciá-los. Será?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Futuros amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(Chico Buarque. Futuros amantes)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Perfil 2

Além de sermos bons - os melhores - ainda temos que ser os primeiros, ou às vezes mais, os únicos. Nascer primeiro significa que papai e mamãe não precisariam do segundo, então por que raios tiveram? E o que dizer sobre aquele amor que, não contente em ter você, quis amigos, família e - pasmem! - outro amor? Cheguemos então ao ápice do absurdo: não ser o primeiro. Não basta ser reprovado, trocado, frustrado, há alguém melhor! Uma opção primeira, um desejo primeiro. Assim, o segundo lugar sente sempre o gosto amargo de não chegar lá.
Ser a segunda opção não é o sonho de ninguém. É preferível não conseguir, não ter competência, não ter chance. Mas - fazer o quê? - é uma situação com que se tem que lidar. Talvez o pensamento mais confortável seja o de admirar o oponente, o ostensivo primeiro lugar, e, fazendo isso, cheguei à conclusão:
Não, não me importo em ser a segunda opção. Desde que a primeira seja extraordinariamente fantástica.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Perfil 1

O meu mundo é diferente. É todo e só meu. Não está aberto à visitação, já que possui fosso, catapulta e dragão. Dá até pra ver o que acontece logo ali, mas aqui é bem mais interessante. Tem boa música, boa comida, boa leitura e até boa mobília. A companhia é ótima: seleta, claro. Os amigos visitam com certa freqüência, e amo todos eles por se deslocarem até aqui, nem que seja por alguns instantes.
Sorte mesmo é ter esta vitrine azul-celeste aqui. Ah, a vitrine, fantástica invenção do século 19. Sob medida para nos manter próximos dos objetos de desejo e convenientemente apartados deles para que não se tornem um pedaço de nós. Conheço os amigos daqui tanto quanto eles me conhecem, ou eu conheço a mim mesma. Os meus gostos musicais, meus filmes preferidos, o que faço para viver. Dados cuidadosamente selecionados para saberem de mim, nem mais, nem menos do que aí está. E como é bom saber que alguém tem uma porcentagem incrível de interesses azul-celeste que eu também tenho! Como temos estilo! Como temos personalidade! Como temos bom-gosto!
Ops... Meu mundo é igual ao seu.


(Texto escrito em 24.05.2008 para o meu perfil do Orkut e o primeiro dos responsáveis por plantar a sementinha desse blog...)

terça-feira, 22 de julho de 2008

O caçador de pipas

Passei a semana passada "devorando" o romance best-seller de Khaled Hosseini. É uma leitura fácil, em que as palavras vão sendo absorvidas rapidamente. Consegue, porém, não ser tão superficial. O autor descreve uma Cabul de antes das ocupações russa, da Aliança do Norte e do Talibã, sem que a cidade se torne o foco da narrativa. Ao contrário, ela serve de palco para a infância feliz mas conflituosa de Amir. Ele luta pelo amor do pai (sua mãe morreu durante o parto), enquanto passa os dias brincando com o filho de Ali, empregado da casa, o menino de lábio leporino e cara redonda de boneca chinesa, Hassan.
Amir lê histórias para Hassan, que é analfabeto como o pai, e, um dia, passa a escrevê-las também. Os dois são apaixonados por pipas, que movimentam todos os meninos durante o inverno em Cabul. Em um desses invernos, Amir está disposto a ganhar o campeonato para impressionar o pai, conquistar sua admiração. Vence; e Hassan, o melhor caçador de pipas de toda a cidade, vai atrás da última pipa a cair para dá-la como troféu a Amir. "Por você, faria isso mil vezes".
O próprio Amir, já adulto, contando suas memórias em primeira pessoa, diz que aquele dia de inverno definiu o que seria ele por todo o resto de sua vida. E com razão. Todas as suas angústias, seus desejos, seus medos foram regidos pelas conseqüências daquele dia.
O caçador de pipas, o romance, fala sobre lealdade, coragem e covardia, pais e filhos, honra, religião, culpa e redenção. O filme (The kite runner - EUA, 2007) de Marc Forster, contudo, parece mudar esse aspecto.
Há sempre as tradicionais ressalvas a adaptações cinematográficas de romances. É preciso observar que se tratam, sim, de adaptações. Mas, na minha opinião, Forster modificou o caráter da história. Em primeiro lugar, a supressão das narrações de Amir fazem falta para a compreensão dos conflitos internos do personagem que, de outra forma, não são tão bem explicitados. Essa falta de profundidade nesses conflitos levam o espectador a permanecer apenas nas aparências das coisas, o que quase transforma o longa em uma história de refugiados de guerra. Pelo filme, não se percebe a tamanha lealdade de Hassan por Amir. Não é dada a dimensão das relações entre Amir e o pai e Hassan e Ali (que, à primeira vista, são patrões e empregados, respectivamente). Não se explicita os reais motivos que levam Amir devolta a Cabul, além, é claro, de resgatar um menino.
É importante ressaltar que o longa-metragem tem, em si, muitas qualidades. A fotografia é muito bonita e a condensação de alguns pontos da narrativa foi bem resolvida. A meu ver, seu escorregão ficou por conta do caráter geral da história, que foi bastante modificado. Falta ao filme o que o romance tem de sobra: detalhes que, sob um olhar mais atento, são primordiais. A boa notícia é que, assim, pode-se ver o longa antes e, ainda assim, descobrir muitas outras coisas ao ler o livro. Este, sim, imperdível.

sábado, 19 de julho de 2008

Agradeça

Minha mãe, não só por ser mãe, creio eu, é um ser visionário. Ela tem o costume de dar presentes de Ano Novo: coisinhas simples porém emblemáticas para transmitir votos para o ano seguinte ou meramente para fazer pensar em algo.
No final de 2007, eu e umas criaturinhas muito queridas ganhamos dela camisetas brancas com verbos no imperativo escritos em cores com glitter. Em sua ingenuidade, escolheu quem ficaria com o quê pelas cores preferidas de cada uma. Vermelho, azul, rosa, verde... Ninguém gostava de amarelo, então fiquei eu com ela.
Mal sabia minha mãe que o critério adotado correspondia a um propósito bem maior. "Ame", "sonhe", "brilhe", "acredite"; foram todas parar nas mãos certas. Por um momento, fiquei achando ser uma tremenda ironia do destino receber a "agradeça". Mas, pensando um pouco, não poderia ter outra.
Agradeço, hoje em particular, dentre tantas outras coisas, às pessoas queridas que me ofereceram colo, ombro, risos, elogios, companhia para a caminhada, licença poética... Todo o carinho que, às vezes, nem imaginava que receberia. Sem vocês, não seria a mesma coisa.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sobre anjos

Existem pessoas na vida que são como aquelas criaturas que costumamos chamar anjos. Prefiro acreditar que algumas entidades recebem o nome de anjos por causa dessas pessoas.
Como reconhecer uma? Bom, no meu caso, posso pensar em alguém e tentar responder.
Ela tem sempre um olhar que dispensa palavras. Sabe versinhos e frases milagrosos. Cria metáforas pra explicar as coisas mais indescritíveis. Consegue rir e chorar da mesma coisa. Encoraja todas aquelas pequenas loucuras que acabam nos trazendo alegrias. Mudou vários conceitos até então sólidos. Me ensinou a ficar de pé nos cavalinhos do carrossel. Nunca me disse isso, mas estava ali em todas as horas, boas ou más. Tem realmente o espírito dos velhos marinheiros, que saem por aí desbravando os mares com a coragem que só os que acreditam em algo maior têm.
Acabei de perceber que não importa o quanto eu tente, não dá pra explicar como reconhecer uma pessoa dessas. Só dá pra sentir. E agradecer. Agradecer por ter uma pessoa assim na vida e não conseguir descrever como ela enxerga, como ela entende, como ela completa.
"Por você, faria isso mil vezes."

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Recordo ainda

Mário Quintana falando do paraíso perdido. A primavera de atmosfera reconfortante e as novidades do mundo em descoberta vistas da senilidade de árvores retorcidas.

Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

(Mário Quintana. Recordo ainda)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Amor é coisa que se empresta

Quando disse que o amor era coisa que tínhamos e dávamos, cabendo ao destinatário aceitá-lo ou não, o querido Rafael Craice (o padrinho) me corrigiu defendendo que o amor se empresta. Segundo ele, cultivamos o amor e o oferecemos emprestado; a pessoa aceita ou não. Mais: se temos pouco, pouco amor temos a oferecer e mais queremos emprestado. Se temos muito, muito podemos oferecer e pouco pedimos emprestado.
Concordo, Rafa.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O escafandro e a borboleta

Acaba de ser lançado O escafandro e a borboleta (Le scaphandre et le papillon - França/EUA, 2007), do diretor Julian Schnabel. O roteiro de Ronald Harwood é baseado no livro homônimo de Jean-Dominique Bauby, jornalista e editor francês da revista Elle. Aos 43 anos, Bauby sofre um acidente vascular cerebral que deixa todo seu corpo, com exceção de seu olho esquerdo, imobilizado, apesar de ainda gozar de plenas faculdades mentais. Ele padece de uma condição rara conhecida como Síndrome Locked-In. Apesar disso, Bauby dita, letra a letra, seu Le scaphandre et le papillon piscando o olho esquerdo quando a pessoa que toma suas notas diz a letra requerida.
O filme (bem como o livro) narra as sensações de Jean-Dominique preso a seu próprio corpo. A princípio, o espectador é convidado a experimentar a angústia desde o lado de dentro. As primeiras cenas nos fazem ouvir a voz interior do jornalista e a câmera toma o lugar de seu olho que é a única ligação com o exterior. Estamos presos em seu escafandro também. À medida que Bauby vai se familiarizando com sua nova condição e aprendendo a lidar com ela, também o espectador vai saindo de dentro dele e o foco passa às relações com o mundo. Então ele decide ditar seu livro, que se tornou sua forma de sair do casulo. Bauby faleceu de pneumonia 10 dias após a publicação de Le scaphandre et le papillon.

O jornalista levanta a questão de como se dá a relação entre interior e exterior. Se o mundo é o que percebemos dele através dos cinco sentidos e como agimos nele, o que dizer de uma experiência em que o ambiente é detectado apenas pela visão e pela audição e em que não se pode atuar? Estímulos ópticos e sonoros fazem pessoas, objetos e idéias entrarem, mas dificilmente se consegue fazer coisas saírem. Bauby dita suas memórias do cárcere como forma de se fazer ouvir, mas será que seria necessário se ver impossibilitado para querer agir no mundo? Seria preciso se ver preso consigo mesmo, condenado à solidão interior, para (re)avaliar conceitos e posturas em relação aos outros?
Há muitos escafandros vestindo poucos escafandristas de fato, já que estes têm como objetivo desbravar águas profundas, desconhecidas, obscuras.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Hoje entendi o senhor Forrest Gump. Saí caminhando – e não correndo – por aí para não pensar. Queria simplesmente andar e sentir o sol quente e o ar frio sobre a pele. Nada de buscas, questionamentos, desejos ou tristezas: era só eu mesma, de cabeça vazia e peito apertado. Caminhar fazia sentido, porque era eu ali me movimentando sem destino e observando o mundo parado ao meu redor. Ainda queria me cansar, a fim de que, esgotada, não sentisse mais nada. Coisa extraordinária alguma aconteceu no percurso, e essa foi a melhor parte.
Continuei pensando em nada enquanto nada acontecia, quando o vento parou de purificar e passou a só jogar meus cabelos sobre os olhos. Então decidi voltar. Percebi que deveria encarar a fonte do aperto, pois ele não iria embora sozinho naquelas circunstâncias. Foi então que bati à porta e tudo ficou claro: eu não pertencia àquele lugar. Não sem dor, vi que há coisas na vida que não dependem de nós. Podemos querer, devemos querer, mas a escolha não é (só) nossa.
Disseram-me, outro dia, que se pode ter o amor em si mesmo e, mais ainda, se pode dar esse amor. Se o destinatário dele não o aceitar, você continua possuindo-o, apesar de tudo.
Com o aperto ainda aqui, mas com a alma lavada, tive carona pra casa. Experimentei a sensação de dever cumprido e lavei meus tênis brancos sujos de terra vermelha.

(12.07.2008)