Ter de pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos.
(José Saramago. A viagem do elefante)
terça-feira, 16 de junho de 2009
Bons modos
Cautelosamente, fritz deu a entender a solimão que já era hora de fazer um pequeno esforço para se levantar. Não ordenou, não recorreu ao seu variado repertório de toques de bastão, uns mais agressivos que outros, apenas deu a entender, o que demonstra uma vez mais que o respeito pelos sentimentos alheios é a melhor condição para uma próspera e feliz vida de relações e afectos. É a diferença entre um categórico Levanta-te e um dubitativo E se tu te levantasses. Há mesmo quem sustente que esta segunda frase, e não a primeira, foi a que jesus realmente proferiu, prova provada de que a ressurreição, afinal, estava, sobretudo, dependente da livre vontade de lázaro e não dos poderes milagrosos, por muito sublimes que fossem, do nazareno. Se lázaro ressuscitou foi porque lhe falaram com bons modos, tão simples como isto.
(José Saramago. A viagem do elefante)
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Caramelo
Caramelo (Caramel, França/Líbano - 2007) é um filme sobre mulheres e suas infinitas formas de se relacionar com o mundo e consigo mesmas. Dirigido e protagonizado por Nadine Labaki, traz na pasta caramelada a síntese do universo feminino: doce, intenso, difícil de manusear, multifacetado.
Um salão de beleza é o microcosmos que une Layale (Labaki), que mantém um relacionamento com um homem casado; Nisrine (Yasmine Al Masri), que está prestes a se casar e enfrenta problemas de adaptação com a família do noivo; Rima (Joanna Moukarzel) é lésbica; Jamale (Gisèle Aouad), em conflito com a idade; Rose (Sihame Haddad), uma costureira que dedicou sua vida a cuidar da irmã. Cada uma a seu modo é a típica mulher: ama e quer ser amada, aceita e quer ser aceita, apoia e quer ser apoiada.
O filme conta com poucos personagens, com alguns secundários muito bem explorados. As cores são como as emoções, intensas e carameladas. Os movimentos são tristonhos e enérgicos. As situações são as comuns, sem perder a beleza, a dor e, às vezes, a crueldade. O diálogo cruzado entre Layale e o guarda que é apaixonado por ela é imapagável.
Tudo é uma deliciosa mistura de drama, comédia, romance. Bem feminino.
Um salão de beleza é o microcosmos que une Layale (Labaki), que mantém um relacionamento com um homem casado; Nisrine (Yasmine Al Masri), que está prestes a se casar e enfrenta problemas de adaptação com a família do noivo; Rima (Joanna Moukarzel) é lésbica; Jamale (Gisèle Aouad), em conflito com a idade; Rose (Sihame Haddad), uma costureira que dedicou sua vida a cuidar da irmã. Cada uma a seu modo é a típica mulher: ama e quer ser amada, aceita e quer ser aceita, apoia e quer ser apoiada.
O filme conta com poucos personagens, com alguns secundários muito bem explorados. As cores são como as emoções, intensas e carameladas. Os movimentos são tristonhos e enérgicos. As situações são as comuns, sem perder a beleza, a dor e, às vezes, a crueldade. O diálogo cruzado entre Layale e o guarda que é apaixonado por ela é imapagável.
Tudo é uma deliciosa mistura de drama, comédia, romance. Bem feminino.
domingo, 24 de maio de 2009
Burrice e verdade
Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem.
(Robert Musil. O homem sem qualidades)
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Uma delicada forma de calor
Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre mim
e logo hoje tudo isso vem à tona
e me parece cair como uma luva
agora num dia em que eu choro
eu tô chovendo muito mais do que lá fora
lá fora é só água caindo
enquando aqui dentro, cai a chuva
E quanto ao que você me disse
eu me lembro sorrindo vendo você tão séria
tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo
e acabar indignada me achando totalmente impossível
e talvez seja apenas isso...
chovendo por dentro, impossível por fora
Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar
como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível,
tanta coisa diferente
sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada
e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente
E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida sejam como eu
ou talvez porque você esteja de repente assistindo muita televisão
e como um Deus que não se vê-se nunca
como um deus que não se vê-se nunca
seu olhar não consegue perceber
como uma chuva, uma tristeza pode ser uma beleza
e o frio uma delicada forma de calor.
(Zeca Baleiro & Lobão. Uma delicada forma de calor)
e logo hoje tudo isso vem à tona
e me parece cair como uma luva
agora num dia em que eu choro
eu tô chovendo muito mais do que lá fora
lá fora é só água caindo
enquando aqui dentro, cai a chuva
E quanto ao que você me disse
eu me lembro sorrindo vendo você tão séria
tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo
e acabar indignada me achando totalmente impossível
e talvez seja apenas isso...
chovendo por dentro, impossível por fora
Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar
como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível,
tanta coisa diferente
sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada
e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente
E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida sejam como eu
ou talvez porque você esteja de repente assistindo muita televisão
e como um Deus que não se vê-se nunca
como um deus que não se vê-se nunca
seu olhar não consegue perceber
como uma chuva, uma tristeza pode ser uma beleza
e o frio uma delicada forma de calor.
(Zeca Baleiro & Lobão. Uma delicada forma de calor)
terça-feira, 7 de abril de 2009
A well respected man
'Cause he gets up in the morning,
And he goes to work at nine,
And he comes back home at five-thirty,
Gets the same train every time.
'Cause his world is built 'round punctuality,
It never fails.
And he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And his mother goes to meetings,
While his father pulls the maid,
And she stirs the tea with councilors,
While discussing foreign trade,
And she passes looks, as well as bills
At every suave young man
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And he likes his own backyard,
And he likes his fags the best,
'Cause he's better than the rest,
And his own sweat smells the best,
And he hopes to grab his father's loot,
When Pater passes on.
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And he plays at stocks and shares,
And he goes to the Regatta,
And he adores the girl next door,
'Cause he's dying to get at her,
But his mother knows the best about
The matrimonial stakes.
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
(The Kinks. A well respected man)
And he goes to work at nine,
And he comes back home at five-thirty,
Gets the same train every time.
'Cause his world is built 'round punctuality,
It never fails.
And he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And his mother goes to meetings,
While his father pulls the maid,
And she stirs the tea with councilors,
While discussing foreign trade,
And she passes looks, as well as bills
At every suave young man
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And he likes his own backyard,
And he likes his fags the best,
'Cause he's better than the rest,
And his own sweat smells the best,
And he hopes to grab his father's loot,
When Pater passes on.
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
And he plays at stocks and shares,
And he goes to the Regatta,
And he adores the girl next door,
'Cause he's dying to get at her,
But his mother knows the best about
The matrimonial stakes.
'Cause he's oh, so good,
And he's oh, so fine,
And he's oh, so healthy,
In his body and his mind.
He's a well respected man about town,
Doing the best things so conservatively.
(The Kinks. A well respected man)
terça-feira, 24 de março de 2009
Perdido
perdido está?
perdido estou
por onde eu vá
não sei quem sou
para que a pá?
cavar eu vou
ver o que há
que se enterrou
mas por que cá?
o que restou
se apagará
ou se apagou
(Rafael Craice. Perdido)
perdido estou
por onde eu vá
não sei quem sou
para que a pá?
cavar eu vou
ver o que há
que se enterrou
mas por que cá?
o que restou
se apagará
ou se apagou
(Rafael Craice. Perdido)
Prêmio e preço
O fundo do mar guarda surpresas e maravilhas, mas o risco de se meter um escafandro e mergulhar... é bastante alto.
domingo, 22 de março de 2009
Travessia
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
(Fernando Pessoa)
sábado, 21 de março de 2009
Galeria moderna e igreja medieval
(...) o espaço da galeria moderna como "construído segundo preceitos tão rigorosos quanto os da construção de uma igreja medieval". O princípio fundamental desses preceitos (...) é o de que "o mundo exterior não deve entrar, de modo que as janelas geralmente são lacradas. As paredes são pintadas de branco. O teto torna-se a fonte de luz (...). A arte é livre, como se dizia, 'para assumir vida própria'". O propósito desse ambiente não difere do propósito das construções religiosas - as obras de arte, como as verdades da religião, devem parecer "intocadas pelo tempo e suas vicissitudes". O princípio de aparência extemporânea, ou atemporal, implica a pretensão de que a obra já pertence à posteridade - quer dizer, é uma garantia de bom investimento. Mas ele afasta as coisas da contemporaneidade da vida, a qual, afinal, se desenrola no tempo. "A arte existe numa espécie de eternidade de exposição e, embora haja muitos 'períodos', (...) não existe o tempo. Essa eternidade dá à galeria uma condição de limbo; é preciso já ter morrido para estar lá".
(Thomas McEvilley. In: Brian O'Doherty. No interior do cubo branco)
quarta-feira, 4 de março de 2009
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O curioso caso de Benjamin Button
O curioso caso de Benjamin Button (The curious case of Benjamin Button - EUA, 2008) acaba de ganhar 3 Oscar: direção de arte, maquiagem e efeitos especiais. Baseado no conto de F. Scott Fitzgerald sobre um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos, o longa realmente faz jus às categorias nas quais foi vencedor.
Porém, não convence como história, e acaba escorregando para a borda que separa um bom filme de um bom entretenimento. Acho até que ficaria nesta última categoria, não fosse Cate Blanchett e o primor investido à visualidade.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
I'm outta time
Here's a song
It reminds me of when we were young
Looking back at all the things we'd done
You gotta keep on keeping on
Out to sea
It's the only place I honestly
Can get myself some peace of mind
You know it's getting hard to fly
If I'm to fall
Would you be there to applaud
Or would you hide behind them all?
'cos if I am to go
In my heart you'd grow
And that's where you belong
Guess I'm outta' time
(Liam Gallagher. I'm outta time)
It reminds me of when we were young
Looking back at all the things we'd done
You gotta keep on keeping on
Out to sea
It's the only place I honestly
Can get myself some peace of mind
You know it's getting hard to fly
If I'm to fall
Would you be there to applaud
Or would you hide behind them all?
'cos if I am to go
In my heart you'd grow
And that's where you belong
Guess I'm outta' time
(Liam Gallagher. I'm outta time)
domingo, 15 de fevereiro de 2009
...
A gente fica inventando moda.
Mas acaba descobrindo que as melhores coisas estavam ali, o tempo todo, da forma mais simples.
Mas acaba descobrindo que as melhores coisas estavam ali, o tempo todo, da forma mais simples.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
O escuro da noite
Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Clarice Lispector
Clarice Lispector
domingo, 11 de janeiro de 2009
Os cegos do castelo
Eu não quero mais mentir
Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou
Eu não quero mais dormir
De olhos abertos me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou
E se você puder me olhar
Se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar, e de você e de mim.
(Nando Reis. Os cegos do castelo)
Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou
Eu não quero mais dormir
De olhos abertos me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou
E se você puder me olhar
Se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar, e de você e de mim.
(Nando Reis. Os cegos do castelo)
sábado, 10 de janeiro de 2009
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