segunda-feira, 27 de abril de 2009

Uma delicada forma de calor

Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre mim
e logo hoje tudo isso vem à tona
e me parece cair como uma luva
agora num dia em que eu choro
eu tô chovendo muito mais do que lá fora
lá fora é só água caindo
enquando aqui dentro, cai a chuva

E quanto ao que você me disse
eu me lembro sorrindo vendo você tão séria
tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo
e acabar indignada me achando totalmente impossível
e talvez seja apenas isso...
chovendo por dentro, impossível por fora

Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar
como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível,
tanta coisa diferente
sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada
e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente

E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida sejam como eu
ou talvez porque você esteja de repente assistindo muita televisão
e como um Deus que não se vê-se nunca
como um deus que não se vê-se nunca
seu olhar não consegue perceber
como uma chuva, uma tristeza pode ser uma beleza
e o frio uma delicada forma de calor.


(Zeca Baleiro & Lobão. Uma delicada forma de calor)

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