Ela é quase tudo o que sonhei
E eu sou quase aquilo que sempre evitei
E falhei, sim, falhei...
Quase um amor
Quase um caminho
Que me deixou
Quase sozinho
E quase que fiquei contente
E fui feliz pra sempre
No dia em que eu
Quase conquistei seu coração
Quase um amor
Quase um caminho
Que me deixou
Quase sozinho
E apesar de ter ficado
Quase um ano
Quase morto de paixão
Hoje já estou quase bão
(Pato Fu. Quase)
domingo, 31 de agosto de 2008
Voz
Mesmo ao som de canhões, tiros ou bombas, a voz humana é um som mais potente. Pode ser ouvida ainda que não se esteja gritando. Em volume corriqueiro, ou mesmo que seja só um suspiro. A voz humana deve ser ouvida principalmente se for um suspiro.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Crônica de amor
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem noódio vocês combinam. Então?Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.
(Arnaldo Jabor. Crônica de amor)
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Lemon tree
Está em cartaz Lemon tree (Israel/Alemanha/França, 2008), dirigido e produzido por Eran Riklis. A distribuidora optou por manter o título internacional do filme aqui no Brasil, mas talvez seja importante saber que esse também é o título internacional da canção popular que conhecemos por "Meu limão, meu limoeiro", que é apresentada já na primeira seqüência.
Quase surreal, a história é baseada no caso real de Salma Zidane (Hiam Abbas), uma palestina de meia-idade solitária que sobrevive das compotas feitas dos limões do pomar plantado por seu pai e que produz há 50 anos. Sua propriedade fica na Cisjordânia, mas bem ao lado da fronteira com Israel. Um dia, o Secretário de Defesa israelense (Doron Tavory) se torna seu vizinho e, com ele, câmeras de segurança, soldados, guaritas. Assim, os limoeiros de Salma se tornam uma ameaça à segurança de Israel (esse também é o primeiro nome do secretário), por poderem esconder terroristas e serem uma área de fácil aproximação da casa do israelense.
Salma vive sozinha: é viúva e possui três filhos, mas um trabalha nos EUA e as duas filhas são casadas. É um dos genros que indica o advogado (Ali Suliman) que se engaja na causa da defesa do pomar, que vira uma batalha judicial com repercussão na imprensa internacional.
O contraponto surpreendente ao conflito entre os dois é a mulher do secretário (Rona Lipaz-Michael), que se equilibra entre o casamento em vias de falência e a identificação com a vizinha.
Os limões são não só a fonte de renda da palestina, representam uma felicidade longínqua ligada ao pai. A poda do pomar significa não só a extinção do meio de sobrevivência de Salma, mas também a poda de uma extensão dela, como a amputação de um membro. Ele possui ligações emotivas fortes demais para que ela simplesmente aceite que seus limoeiros deixem de existir, ainda mais numa vida cheia de privações como na Cisjordânia. Os limões trazem essa metáfora amarga.
Bonito, delicado e triste.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
sábado, 23 de agosto de 2008
Não entendo
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: pelo menos entender que não entendo.
(Clarice Lispector)
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
In a manner of speaking
In a manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words
O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live
We live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified
So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you
I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words
(Nouvelle Vague. In a manner of speaking)
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words
O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live
We live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified
So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you
I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
O give me the words
Give me the words
That tell me nothing
O give me the words
Give me the words
(Nouvelle Vague. In a manner of speaking)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
O vencedor
Olha lá quem vem do lado oposto
e vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor
e vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor
Olha você e diz que não
vive a esconder o coração
vive a esconder o coração
Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo,
mas não deixa ninguém ver
Por que será ?
Já se sabe que você
só procura abrigo,
mas não deixa ninguém ver
Por que será ?
Eu que nunca fui assim muito de ganhar,
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.
(Marcelo Camelo. O vencedor)
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Bossa cinqüentenária 3
Ah!, se eu pudesse te buscar sorrindo
E lindo fosse o dia, como um dia foi
E indo nesse lindo, feito para nós dois
Pisando nisso tudo que se fez canção
Ah!, se eu pudesse te mostrar as flores
Que cantam suas cores para a manhã que nasce
Que cheiram no caminho quem falasse
As coisas mais bonitas para a manhã de sol
Ah!, se eu pudesse, no fim do caminho
Achar nosso barquinho e levá-lo ao mar
Ah!, se eu pudesse tanta poesia
Ah!, se eu pudesse, sempre, aquele dia
Ah!, se eu pudesse te buscar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar
(Roberto Menescal & Ronaldo Bôscoli. Ah, se eu pudesse)
E lindo fosse o dia, como um dia foi
E indo nesse lindo, feito para nós dois
Pisando nisso tudo que se fez canção
Ah!, se eu pudesse te mostrar as flores
Que cantam suas cores para a manhã que nasce
Que cheiram no caminho quem falasse
As coisas mais bonitas para a manhã de sol
Ah!, se eu pudesse, no fim do caminho
Achar nosso barquinho e levá-lo ao mar
Ah!, se eu pudesse tanta poesia
Ah!, se eu pudesse, sempre, aquele dia
Ah!, se eu pudesse te buscar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar
(Roberto Menescal & Ronaldo Bôscoli. Ah, se eu pudesse)
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Ipês
Os ipês são as árvores mais bonitas que existem. Não sei bem se porque têm aquele tronco meio retorcido, com a casca bem rude e escura, e que, quando está florindo, faz um contraste maravilhoso com as flores delicadas de cores marcantes.
Tenho a sorte de morar perto de alguns deles, e de ver tantos outros no meu percurso cotidiano. Há os cor-de-rosa, os brancos e os amarelos, que florescem cronologicamente nesta exata ordem. Os ipês brancos são raridade por aqui, é verdade, mas vejo um da minha janela e ele tem flor há um mês. Os cor-de-rosa, visivelmente mais abundantes, forram o chão e salpicam o céu desde junho. Mas os meus preferidos - os amarelos - parecem estar tímidos este ano. Há apenas algumas flores neles. Parace que, mesmo ipês, que florescem nesta época, acharam este inverno triste demais para desabrochar sua exuberância completamente. Um daqueles fenômenos byronistas, suponho.
Felizmente, tenho uma orquídea em flor na sacada.
domingo, 17 de agosto de 2008
Esta velha
Quando não se tem como descrever coisas, melhor valer-se de poeta, desses profissionais, que conseguem maravilhas com palavras em determinadas lógicas. Hoje, ninguém melhor que Fernando Pessoa.
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!
(Álvaro de Campos. Esta velha)
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!
(Álvaro de Campos. Esta velha)
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Sentimentos paradoxais 1
Às vezes a gente sente no ombro, de um lado, aquele anjinho alvo sussurrando bons sentimentos e, de outro, o diabinho querendo mandar a algum lugar feio todos esses bons sentimentos... Pra exemplificar um desses momentos, comparo essa música do Nando Reis cantada pela Cássia Eller com "Smile", da Lily Allen.
Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo
Nem mesmo porque eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é porque eu não acho o papel onde anotei o telefone que eu to precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é porque eu fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é porque tá muito frio,
Não é porque tá muito calor.
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que com você daria certo
Juntos faríamos tantos planos,
Com você o meu mundo ficaria completo.
Eu vejo nossos filhos brincando,
E depois cresceriam e nos dariam os netos.
A fome que devora alguns milhões de brasileiros perto disso já não tem importância
A morte que nos toma a mãe insubstituível de repente dela já nem me lembro
A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido
As datas, fatos e aniversariantes passam sem deixar o menor vestígio
Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora pelo outro ouvido
Roubaram a carteira com meus documentos, aborrecimentos que eu já nem ligo.
Não é porque eu quis e eu não fiz.
Não é porque eu não fui eu não vou.
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos porque o nosso mundo estaria completo
Eu vejo os nossos filhos brincando com seus filhos que depois nos trariam bisnetos.
Não é porque eu sei que ela não virá que eu não vejo a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la mesmo que não tenha a mínima lógica nesse raciocínio
Não é que eu esteja procurando o infinito a sorte pra andar comigo
Se a fé remove até montanhas o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando.
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que sinto e o que eu sou.
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas pois isso não é mais secreto
Juntos morreríamos pois nos amamos e de nós o mundo ficaria deserto.
Eu vejo nossos filhos lembrando com seus filhos que já teriam seus netos.
(Nando Reis. Meu mundo ficaria completo (Com você))
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Sobre anjos 2
Sou uma pessoa que acredita no valor das pequenas coisas, que gosta de somar grão a grão e ver um todo bonito e consistente se formar. O grande barato, quase sempre, está no pequeno (com o perdão do trocadilho).
Recentemente, voltei a olhar para as dimensões mais vultosas dos atos. O caso é que, quando nos deparamos com a doação, freqüentemente ficamos admirados com o desprendimento com que certas ações são praticadas. E essas ações, quando provenientes reiteradamente de determinada pessoa, chegam até a criar uma expectativa de que ela vai sempre agir assim, com generosidade perene.
E eis que a Vida vem e prega mais uma de suas peças. Não, a pessoa de coração enorme não deixa de estar aberta e disposta a se doar. Porém, a Vida pede mais. Faz um pedido daqueles, dos grandes. Anjos não titubeiam: deve abrir mão de parte de si mesma. No mais primitivo dos sentidos que a frase possa assumir.
Além de deixar explicitada minha admiração incondicional a alguém assim, quero acalmar os aflitos com tal pedido da senhora Vida. Acho que, como tenho o prazer da convivência de uma entidade dessas, entendi o propósito da ação. Há coisas que não se explicam; você só sabe que tem que fazer. E, doar-se, literalmente, é apenas estar para sempre ali, junto ao ser amado.
Garanto: ela faria mil vezes.
sábado, 9 de agosto de 2008
Mudando de casa
Mudar de casa neste mundo aqui fora quase sempre significa mudar a casa neste mundo aqui dentro. No caso específico desta que vos fala, mudo de casa hoje como reflexo de algumas mudanças exigidas por furacões passados, mas tenho certeza de que alguns ainda hão de vir como conseqüência dessa mudança. Seja como for, citando o poeta, "é melhor ser alegre que ser triste", então o que vale mesmo é jogar a bola pra frente, de preferência, pra cima.
Mas JuCa, volta logo da França!
Mas JuCa, volta logo da França!
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Sobre impotência
Meditando sobre impotência... Não, não a sexual. Bom, pensando melhor, até ela. Qualquer e todo tipo de impotência.
O que significa não conseguir?
Começando do começo. Quais os fatores que levam alguém a declarar a impossibilidade de realizar algo? Falta de habilidade/capacidade? Descrença? Medo? Saramago diz que o medo é o maior justificador de quaisquer atos.
Continuo meditando e aceito opiniões...
O que significa não conseguir?
Começando do começo. Quais os fatores que levam alguém a declarar a impossibilidade de realizar algo? Falta de habilidade/capacidade? Descrença? Medo? Saramago diz que o medo é o maior justificador de quaisquer atos.
Continuo meditando e aceito opiniões...
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Epígrafe
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
(Epígrafe do romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)
(Epígrafe do romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Bossa cinqüentenária 2
Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões no gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
É disconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos dezembros
Mas quando eu me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero
Nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
(Tom Jobim & Chico Buarque. Anos dourados)
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões no gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
É disconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos dezembros
Mas quando eu me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero
Nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
(Tom Jobim & Chico Buarque. Anos dourados)
Bossa cinqüentenária 1
Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas ah se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim
Colado assim
Calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim
(Vinícius de Morais & Tom Jobim. Chega de saudade)
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas ah se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim
Colado assim
Calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim
(Vinícius de Morais & Tom Jobim. Chega de saudade)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Quando estou amando
Ontem vi Quando estou amando (Quand j'étais chanteur, França - 2006), de Xavier Giannoli. Gérard Depardieu é Alain Moreau, um cantor galanteador que possui certa fama pelos 20 anos de carreira cantando em pequenos bailes. Conhece Marion (Cécile de France), uma corretora de imóveis recém-divorciada, através de um amigo em uma de suas apresentações. Os dois passam uma noite juntos mas, apesar do distanciamento de gerações, são aproximados pelo recomeço que a vida impõe a cada um.
O filme tem recebido vários elogios da crítica não por sua história, que poderia ser a de qualquer um, mas pelas interpretações de Depardieu e Cécile. Ele é realmente um grande ator, que torna um cantor de bailes que beira o cafona (se não o alcança) um homem de meia-idade apaixonado pelo que faz e indigno de pena. Além disso, Cécile o complementa na medida.
Depardieu, que já viveu Rodin, Balzac e Obélix, ajudou Giannoli a escolher as canções (que ele mesmo interpreta no filme) que carregam a atmosfera nostálgica da narrativa. Tudo são camisas de seda, capas de CD pra lá de bregas, antigas músicas açucaradas, casais rodopiando nos salões. O longa tinha tudo para ser sobre viver de passado. Porém, fala de futuro. Os dois personagens principais mergulham (e levam junto o espectador) no universo dos antigos bailes regados a romantismo para descobrirem o que realmente importa a eles e que vale a pena recomeçar.
Um filme para ser visto sem medo de ser ridiculamente romântico.
domingo, 3 de agosto de 2008
Epístola aos blogueiros
(Texto de Fabrício Carpinejar publicado hoje no Caderno de Cultura d'O Estado de São Paulo)
Nunca invejei Santo Agostinho pela sua salvação. Não conseguiria repeti-lo. Guarda-se a impressão de que ele quis se livrar da danação no ombro do Pai. Olhando de perto, ele foi mais corajoso do que conformista. Antecipou o inferno. Não esperou para sofrer na outra dimensão. Pagou à vista o inferno. Converter não é encontrar Deus, é encontrar o inferno.
Blog é prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Em vez de ser conhecido, corresponde a mergulho no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração.
Indica a fronteira entre o amador e o escritor, entre o diletante e o renitente, entre o curioso e quem não consegue se afastar da compulsão narrativa. O amador cansará nos primeiros meses. Vai deduzir que não vale a pena o trabalho, que ninguém lê. Uma tortura postar textos durante três meses e não receber nenhum comentário. São os 40 dias do deserto, com as tentações sobrevoando o teclado. "Então Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto para ser tentado pelo demônio e, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome" (Evangelho de Mateus, capítulo 4, versículo 1).
Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagem para os amigos; manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um Spam. Recebe avisos ásperos: "não o conheço" ou "favor me excluir da lista". A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio à marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.
Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.
Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás. Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça.
Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao criar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos emails falsos. Hora do soro!
Escrever na rede é uma tentativa de suicídio, chamar atenção dos outros para a nossa carência. Um aviso escandaloso da nossa fragilidade. Pensando bem: publicar é um suicídio frustrado. Quando o ímpeto de sair da vida é usado para entender a própria vida e as dificulades enfrentadas pelos demais autores.
Uma das virtudes do blog é sua provação. Agüentar os contratempos no osso. Ver que não é um elogio que o fará continuar, muito menos uma crítica que o fará desistir. Que nascer para a letra é amar a insuficiência. O escritor se sucede progressivamente. Melhora. Estar sozinho é ainda estar povoado. Povoado por dentro. Pelos personagens, pelas histórias familiares, pela observação aprofundada dos seus arredores. Só quem foi fantasma um dia poderá alimentar seus fantasmas. Procura-se um reconhecimento externo e encontra-se algo mais preciso: a afirmação pessoal na persistência. Procura-se lá fora o que já se tinha. Como diz Santo Agorstinho: "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim".
O esforço de sair da solidão ajuda curiosamente a fortalecê-la. Compreende que não escreve para completar um diário, ou para repetir sua história, se fosse assim não contaria com assunto para atualização semanal, mesmo que desfrutasse uma trajetória acidentada e heróica como a de Hemingway. Escreve para duvidar e se banhar na luminosidade da confusão biográfica.
Um texto postado é como um texto impresso. Mais fácil para localizar os erros, os tropeços, formar distanciamento. Confere uma maioridade na escrita, reforça uma postura profissional de jardinar e cuidar do verbo, de alterar a prosa e a poesia em nome da transparência e da fluidez. Há a formação gradual de uma assinatura, transmitindo uma visão de ser responsável por aquilo que se diz, de assumir honestamente as dívidas da boca. Organiza-se o rascunho, que é bem mais duro do que redigi-lo.
Não é fácil a rotina da blogosfera. Terá que superar vários fins, várias negativas, várias mortes. Superar a expectativa de fama pelo prazer do texto. Por isso, o prazer necessita ser mais forte do que a dor. O masoquista é o que gosta mais do sofrimento do que da carícia. O blogueiro é o que esquece a ferida pela alegria. A diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta: o blog é uma gaveta aberta.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
A visão de morte de Miguilim
Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem - debaixo da exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então - ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam... Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! - maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não agüentava... Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de, amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.
(João Guimarães Rosa. Trecho de Campo Geral, in Manuelzão e Miguilim)
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