quarta-feira, 20 de abril de 2011

Escassez e transbordamento

Os poetas que escrevem por escassez de ser, como eu, planejam os livros, têm um vazio a preencher. Os outros transbordam.

[João Cabral de Melo Neto]

Considerações sobre o poeta dormindo

É o fato de estarmos adormecidos que dá ao sonho aquelas dimensões, aqueles ritmos de escafandristas às coisas que se desenrolam diante de nós. Aquelas distâncias, aqueles acontecimentos nos quais não podemos intervir, diante dos quais somos invariavelmente o preso, o condenado, o perseguido. Contra os quais não podemos de nenhum modo agir.

Não sei se será adiantar-se demais pelo terreno do "literário", dizer que é possível reconhecer em todos esses elementos que compõem o clima do sonho, esse clima que como o da poesia, é um clima de tempestade, uma imagem da própria aparência do homem adormecido. Ambos: os acontecimentos do sonho e o homem adormecido, profundamente marcados pela presença mesma do sono, essa presença que não é de nenhum modo, apenas a ausência de nossas vinte e quatro horas, mas a visão de um território que não sabemos, do qual voltamos pesados, marcados por essa nostalgia de mar alto, de "águas profundas", para empregar a tradução que Américo Torres Bandeira faz das desconhecidas sensações nele provocadas por uma anestesia de clorofórmio. Como não reconhecer essa presença do sono na atitude do corpo de quem dorme, nessas poses não raro trágicas (irônicas), nas palavras que se quer balbuciar, na fisionomia em que adivinhamos, inegavelmente, os sinais de uma contemplação, e que é sob outro aspecto, um sinal de vida?

(...)

Além de tudo, porém, uma observação se faz necessária: a poesia não está no sono, no sentido em que ele constitua um reservatório, do qual, em sucessivas descidas, o poeta nos aporte os materiais de seu lirismo. O sono predispõe à poesia. Reconheço que o próprio elemento, o sono em si, a própria palavra: sono (feita de sons que parecem se prolongar no escuro; a voz do homem falando no escuro), são coisas enormemente poéticas. Entretanto, a ação do sono sobre o poeta se dá em outro nível que o de simples material para o poema. Num terreno em que ele deixa de ser um objeto e se transforma como que num exercício, num apronto para o poeta (no sentido esportivo do termo), aguçando nele certas aptidões, certa vocação para o sobrenatural e o invisível, certa percepção do "sentido oculto das forças inertes", da fórmula de Pedro Nava.

(...)

Uma outra observação a fazer (...) é a de que o sono promove esse amálgama de sentimentos, visões, lembranças, que segundo Cocteau fará o verdadeiro realismo do poeta. Pode-se dizer do sono que ele favorece a formação de uma certa zona obscura (um tempo obscuro), onde essa fusão se desenvolve (os nossos sentidos oficiais adormecidos) e de onde subirão mais tarde esses elementos que serão os elementos do poema e que o poeta surpreenderá um dia sobre seu papel sem que os reconheça. Sobretudo, favorece aquele recolhimento, aquela presença em si (o poeta andando a longas pernadas dentro de sua noite), cujo efeito sobre o poeta, um grande poeta comparou ao de uma verdadeira purificação do espírito (Raissa Maritain).

(...)

Assim, pode-se adiantar que o sono não inspira uma poesia (a poesia moderna, por exemplo, coisa que se dá inegavelmente com o sonho, cuja mitologia é a da própria poesia moderna), no sentido em que o poeta se sirva dele como uma linguagem ao seu uso. Apenas, fecunda-a com o seu sopro noturno - o hálito da própria poesia em todas as épocas.


[João Cabral de Melo Neto. Considerações sobre o poeta dormindo. Tese apresentada ao Congresso de Poesia do Recife, 1941]