segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O africano

Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós.

(J.M.G. Le Clézio. O africano)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Queime depois de ler

Queime depois de ler (Burn after reading, EUA - 2008) é o longa seguinte ao mais que fantástico Onde os fracos não têm vez (No country for old men, EUA - 2007) dos irmãos Ethan e Joel Coen. E, fora o estilo dos irmãos, com câmeras posicionadas inusitadamente e violência típica, eles não guardam muitas semelhanças.
Queime depois de ler é jocoso. Zomba da ambição da classe média norte-americana, da paranóia, da idealização estética do corpo, da instituição do casamento, dos órgãos de inteligência, da moralidade fajuta. Ridiculariza quase tudo que toca.
Osbourne Cox (John Malkovich) é um agente da CIA que é demitido por "problemas com álcool", e resolve escrever suas memórias. Sua mulher Katie (Tilda Swinton) resolve então preparar o divórcio e assumir o caso com o casado policial canastrão Harry Pfarrer (George Clooney), que se orgulha de nunca ter usado sua arma nos 20 anos de profissão. Contudo, um CD com arquivos das memórias de Cox chegam às mãos dos amigos e funcionários de uma academia de ginástica Linda Litzke (Frances McDormand) e Chad Feldheimer (Brad Pitt). Então eles resolvem entrar em contato com o ex-agente da CIA para exigir dinheiro em troca dos arquivos, que pagaria o sonho plástico de quatro intervenções cirúrgicas de Linda, que, através de um site de relacionamentos, torna-se amante de Harry.
Assim, os Coen desenvolvem a trama baseados numa conspiração sobre nada. Todos os personagens - com exceção do bobo Chad - levam vidas duplas, e vão se embrenhando em paranóias de todo tipo. O tom é sempre de deboche, sem, contudo, fazer comédia pastelão. Os personagens são ridículos e nos fazem rir justamente por serem um pedaço de nós.
O filme funciona por não contar com grandes virtuosismos de direção ou elenco. Ele se baseia num conjunto de fatores. Clooney e Pitt, revelados na comédia em Onze homens e um segredo (Ocean's eleven, EUA - 2001) e suas seqüências, fazem piada da sua condição de galã. Clooney está hilário como o homem médio norte-americano, que demonstra toda sua virilidade com suas amantes e corridas. Tilda Swinton desconstrói a imagem da mulher do século 21, bem-sucedida, atraente e dona de si. A obsessão pela forma física perfeita de Frances McDormand misturada a seus encontros amorosos em sites de relacionamentos ganham a cereja do bolo no fim do longa.
Fica a cargo dos agentes da CIA, que monitoram toda a situação, a "lição" do desfecho inesperado e irônico. Os Coen nos ensinam a não nos levarmos tão a sério.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Téo e a gaivota

É de imaginar bobagem
Quando a gente liga na televisão
Toda dor repousa na vontade
Todo amor encontra sempre a solidão

Todos os encontros, todos os poemas
Manda me avisar, manda me avisar
Todos os embates, todos os dilemas
Manda me avisar, manda me avisar

Eu sei, todo ser humano
Ai ai
Pode ser um anjo

(Marcelo Camelo. Téo e a gaivota)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Barquinho

Meu barquinho encontrou uma tempestade.
As tempestades são cinza e jogam vento e água nos olhos. Não se pode enxergar. Há que se confiar na intuição.
As tempestades nos jogam de um lado para o outro, às vezes em círculos. Há que se valer do aprendizado adquirido nos carrosséis e rodas-gigantes.
As tempestades são barulhentas... Mal se ouve a própria voz interior.