Queime depois de ler (Burn after reading, EUA - 2008) é o longa seguinte ao mais que fantástico Onde os fracos não têm vez (No country for old men, EUA - 2007) dos irmãos Ethan e Joel Coen. E, fora o estilo dos irmãos, com câmeras posicionadas inusitadamente e violência típica, eles não guardam muitas semelhanças.
Queime depois de ler é jocoso. Zomba da ambição da classe média norte-americana, da paranóia, da idealização estética do corpo, da instituição do casamento, dos órgãos de inteligência, da moralidade fajuta. Ridiculariza quase tudo que toca.
Osbourne Cox (John Malkovich) é um agente da CIA que é demitido por "problemas com álcool", e resolve escrever suas memórias. Sua mulher Katie (Tilda Swinton) resolve então preparar o divórcio e assumir o caso com o casado policial canastrão Harry Pfarrer (George Clooney), que se orgulha de nunca ter usado sua arma nos 20 anos de profissão. Contudo, um CD com arquivos das memórias de Cox chegam às mãos dos amigos e funcionários de uma academia de ginástica Linda Litzke (Frances McDormand) e Chad Feldheimer (Brad Pitt). Então eles resolvem entrar em contato com o ex-agente da CIA para exigir dinheiro em troca dos arquivos, que pagaria o sonho plástico de quatro intervenções cirúrgicas de Linda, que, através de um site de relacionamentos, torna-se amante de Harry.
Assim, os Coen desenvolvem a trama baseados numa conspiração sobre nada. Todos os personagens - com exceção do bobo Chad - levam vidas duplas, e vão se embrenhando em paranóias de todo tipo. O tom é sempre de deboche, sem, contudo, fazer comédia pastelão. Os personagens são ridículos e nos fazem rir justamente por serem um pedaço de nós.
O filme funciona por não contar com grandes virtuosismos de direção ou elenco. Ele se baseia num conjunto de fatores. Clooney e Pitt, revelados na comédia em Onze homens e um segredo (Ocean's eleven, EUA - 2001) e suas seqüências, fazem piada da sua condição de galã. Clooney está hilário como o homem médio norte-americano, que demonstra toda sua virilidade com suas amantes e corridas. Tilda Swinton desconstrói a imagem da mulher do século 21, bem-sucedida, atraente e dona de si. A obsessão pela forma física perfeita de Frances McDormand misturada a seus encontros amorosos em sites de relacionamentos ganham a cereja do bolo no fim do longa.
Fica a cargo dos agentes da CIA, que monitoram toda a situação, a "lição" do desfecho inesperado e irônico. Os Coen nos ensinam a não nos levarmos tão a sério.