quinta-feira, 5 de maio de 2011

O mau crítico e o bom crítico

O escritor é um descobridor; o mau crítico é seu inimigo, pois é inimigo dos descobridores, dos que procuram mundos desconhecidos. Colombo deve ter sido sempre ilógico ou então não teria descoberto a América. O escritor deve ser um Colombo. Mas o crítico malévolo ou insuficientemente instruído pertence àquela camarilha que queria impedir a partida por ser contrária à sua sacrossanta lógica. O bom crítico, ao contrário, sobe a bordo da nava como timoneiro.

[João Guimarães Rosa]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Escassez e transbordamento

Os poetas que escrevem por escassez de ser, como eu, planejam os livros, têm um vazio a preencher. Os outros transbordam.

[João Cabral de Melo Neto]

Considerações sobre o poeta dormindo

É o fato de estarmos adormecidos que dá ao sonho aquelas dimensões, aqueles ritmos de escafandristas às coisas que se desenrolam diante de nós. Aquelas distâncias, aqueles acontecimentos nos quais não podemos intervir, diante dos quais somos invariavelmente o preso, o condenado, o perseguido. Contra os quais não podemos de nenhum modo agir.

Não sei se será adiantar-se demais pelo terreno do "literário", dizer que é possível reconhecer em todos esses elementos que compõem o clima do sonho, esse clima que como o da poesia, é um clima de tempestade, uma imagem da própria aparência do homem adormecido. Ambos: os acontecimentos do sonho e o homem adormecido, profundamente marcados pela presença mesma do sono, essa presença que não é de nenhum modo, apenas a ausência de nossas vinte e quatro horas, mas a visão de um território que não sabemos, do qual voltamos pesados, marcados por essa nostalgia de mar alto, de "águas profundas", para empregar a tradução que Américo Torres Bandeira faz das desconhecidas sensações nele provocadas por uma anestesia de clorofórmio. Como não reconhecer essa presença do sono na atitude do corpo de quem dorme, nessas poses não raro trágicas (irônicas), nas palavras que se quer balbuciar, na fisionomia em que adivinhamos, inegavelmente, os sinais de uma contemplação, e que é sob outro aspecto, um sinal de vida?

(...)

Além de tudo, porém, uma observação se faz necessária: a poesia não está no sono, no sentido em que ele constitua um reservatório, do qual, em sucessivas descidas, o poeta nos aporte os materiais de seu lirismo. O sono predispõe à poesia. Reconheço que o próprio elemento, o sono em si, a própria palavra: sono (feita de sons que parecem se prolongar no escuro; a voz do homem falando no escuro), são coisas enormemente poéticas. Entretanto, a ação do sono sobre o poeta se dá em outro nível que o de simples material para o poema. Num terreno em que ele deixa de ser um objeto e se transforma como que num exercício, num apronto para o poeta (no sentido esportivo do termo), aguçando nele certas aptidões, certa vocação para o sobrenatural e o invisível, certa percepção do "sentido oculto das forças inertes", da fórmula de Pedro Nava.

(...)

Uma outra observação a fazer (...) é a de que o sono promove esse amálgama de sentimentos, visões, lembranças, que segundo Cocteau fará o verdadeiro realismo do poeta. Pode-se dizer do sono que ele favorece a formação de uma certa zona obscura (um tempo obscuro), onde essa fusão se desenvolve (os nossos sentidos oficiais adormecidos) e de onde subirão mais tarde esses elementos que serão os elementos do poema e que o poeta surpreenderá um dia sobre seu papel sem que os reconheça. Sobretudo, favorece aquele recolhimento, aquela presença em si (o poeta andando a longas pernadas dentro de sua noite), cujo efeito sobre o poeta, um grande poeta comparou ao de uma verdadeira purificação do espírito (Raissa Maritain).

(...)

Assim, pode-se adiantar que o sono não inspira uma poesia (a poesia moderna, por exemplo, coisa que se dá inegavelmente com o sonho, cuja mitologia é a da própria poesia moderna), no sentido em que o poeta se sirva dele como uma linguagem ao seu uso. Apenas, fecunda-a com o seu sopro noturno - o hálito da própria poesia em todas as épocas.


[João Cabral de Melo Neto. Considerações sobre o poeta dormindo. Tese apresentada ao Congresso de Poesia do Recife, 1941]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lembrança da vida

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com outros acho que nem não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim eu conto. O senhor que é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.

(João Guimarães Rosa. Grande sertão: Veredas)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pagar sonhos

Ter de pagar pelos próprios sonhos deve ser o pior dos desesperos.


(José Saramago. A viagem do elefante)

Bons modos

Cautelosamente, fritz deu a entender a solimão que já era hora de fazer um pequeno esforço para se levantar. Não ordenou, não recorreu ao seu variado repertório de toques de bastão, uns mais agressivos que outros, apenas deu a entender, o que demonstra uma vez mais que o respeito pelos sentimentos alheios é a melhor condição para uma próspera e feliz vida de relações e afectos. É a diferença entre um categórico Levanta-te e um dubitativo E se tu te levantasses. Há mesmo quem sustente que esta segunda frase, e não a primeira, foi a que jesus realmente proferiu, prova provada de que a ressurreição, afinal, estava, sobretudo, dependente da livre vontade de lázaro e não dos poderes milagrosos, por muito sublimes que fossem, do nazareno. Se lázaro ressuscitou foi porque lhe falaram com bons modos, tão simples como isto.
(José Saramago. A viagem do elefante)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Caramelo

Caramelo (Caramel, França/Líbano - 2007) é um filme sobre mulheres e suas infinitas formas de se relacionar com o mundo e consigo mesmas. Dirigido e protagonizado por Nadine Labaki, traz na pasta caramelada a síntese do universo feminino: doce, intenso, difícil de manusear, multifacetado.
Um salão de beleza é o microcosmos que une Layale (Labaki), que mantém um relacionamento com um homem casado; Nisrine (Yasmine Al Masri), que está prestes a se casar e enfrenta problemas de adaptação com a família do noivo; Rima (Joanna Moukarzel) é lésbica; Jamale (Gisèle Aouad), em conflito com a idade; Rose (Sihame Haddad), uma costureira que dedicou sua vida a cuidar da irmã. Cada uma a seu modo é a típica mulher: ama e quer ser amada, aceita e quer ser aceita, apoia e quer ser apoiada.
O filme conta com poucos personagens, com alguns secundários muito bem explorados. As cores são como as emoções, intensas e carameladas. Os movimentos são tristonhos e enérgicos. As situações são as comuns, sem perder a beleza, a dor e, às vezes, a crueldade. O diálogo cruzado entre Layale e o guarda que é apaixonado por ela é imapagável.
Tudo é uma deliciosa mistura de drama, comédia, romance. Bem feminino.

domingo, 24 de maio de 2009

Burrice e verdade

Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem.

(Robert Musil. O homem sem qualidades)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Uma delicada forma de calor

Eu me lembro de você ter falado alguma coisa sobre mim
e logo hoje tudo isso vem à tona
e me parece cair como uma luva
agora num dia em que eu choro
eu tô chovendo muito mais do que lá fora
lá fora é só água caindo
enquando aqui dentro, cai a chuva

E quanto ao que você me disse
eu me lembro sorrindo vendo você tão séria
tentar me enquadrar se sou isso ou se eu sou aquilo
e acabar indignada me achando totalmente impossível
e talvez seja apenas isso...
chovendo por dentro, impossível por fora

Eu me lembro de você descontrolada tentando se explicar
como é que a gente pode ser tanta coisa indefinível,
tanta coisa diferente
sem saber que a beleza de tudo é a certeza de nada
e que o talvez torne a vida um pouco mais atraente

E talvez a chuva, o cinza, o medo, a vida sejam como eu
ou talvez porque você esteja de repente assistindo muita televisão
e como um Deus que não se vê-se nunca
como um deus que não se vê-se nunca
seu olhar não consegue perceber
como uma chuva, uma tristeza pode ser uma beleza
e o frio uma delicada forma de calor.


(Zeca Baleiro & Lobão. Uma delicada forma de calor)