sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A visão de morte de Miguilim

Repensava aquele pensamento, de muitas maneiras amarguras. Era um pensamento enorme, aí Miguilim tinha de rodear de todos os lados, em beira dele. E isso era, era! Ele tinha de morrer? Para pensar, se carecia de agarrar coragem - debaixo da exata idéia, coraçãozinho dele anoitecia. Tinha de morrer? Quem sabia, só? Então - ele rezava pedindo: combinava com Deus, um prazo que marcavam... Três dias. De dentro daqueles três dias, ele podia morrer, se fosse para ser, se Deus quisesse. Se não, passados os três dias, aí então ele não morria mais, nem ficava doente com perigo, mas sarava! Enfim que Miguilim respirava forte, no mil de um minuto, se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase. Mas, nem isso, mau! - maior susto o salteava: três dias era curto demais, doíam de assim tão perto, ele mesmo achava que não agüentava... Então, então, dez. Dez dias, bom, como valesse de ser, dava espaço de, amanhã, principiar uma novena. Dez dias. Ele queria, lealdoso. Deus aprovava.


(João Guimarães Rosa. Trecho de Campo Geral, in Manuelzão e Miguilim)

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