Passei a semana passada "devorando" o romance best-seller de Khaled Hosseini. É uma leitura fácil, em que as palavras vão sendo absorvidas rapidamente. Consegue, porém, não ser tão superficial. O autor descreve uma Cabul de antes das ocupações russa, da Aliança do Norte e do Talibã, sem que a cidade se torne o foco da narrativa. Ao contrário, ela serve de palco para a infância feliz mas conflituosa de Amir. Ele luta pelo amor do pai (sua mãe morreu durante o parto), enquanto passa os dias brincando com o filho de Ali, empregado da casa, o menino de lábio leporino e cara redonda de boneca chinesa, Hassan.
Amir lê histórias para Hassan, que é analfabeto como o pai, e, um dia, passa a escrevê-las também. Os dois são apaixonados por pipas, que movimentam todos os meninos durante o inverno em Cabul. Em um desses invernos, Amir está disposto a ganhar o campeonato para impressionar o pai, conquistar sua admiração. Vence; e Hassan, o melhor caçador de pipas de toda a cidade, vai atrás da última pipa a cair para dá-la como troféu a Amir. "Por você, faria isso mil vezes".
O próprio Amir, já adulto, contando suas memórias em primeira pessoa, diz que aquele dia de inverno definiu o que seria ele por todo o resto de sua vida. E com razão. Todas as suas angústias, seus desejos, seus medos foram regidos pelas conseqüências daquele dia.
O caçador de pipas, o romance, fala sobre lealdade, coragem e covardia, pais e filhos, honra, religião, culpa e redenção. O filme (The kite runner - EUA, 2007) de Marc Forster, contudo, parece mudar esse aspecto.
Há sempre as tradicionais ressalvas a adaptações cinematográficas de romances. É preciso observar que se tratam, sim, de adaptações. Mas, na minha opinião, Forster modificou o caráter da história. Em primeiro lugar, a supressão das narrações de Amir fazem falta para a compreensão dos conflitos internos do personagem que, de outra forma, não são tão bem explicitados. Essa falta de profundidade nesses conflitos levam o espectador a permanecer apenas nas aparências das coisas, o que quase transforma o longa em uma história de refugiados de guerra. Pelo filme, não se percebe a tamanha lealdade de Hassan por Amir. Não é dada a dimensão das relações entre Amir e o pai e Hassan e Ali (que, à primeira vista, são patrões e empregados, respectivamente). Não se explicita os reais motivos que levam Amir devolta a Cabul, além, é claro, de resgatar um menino.
É importante ressaltar que o longa-metragem tem, em si, muitas qualidades. A fotografia é muito bonita e a condensação de alguns pontos da narrativa foi bem resolvida. A meu ver, seu escorregão ficou por conta do caráter geral da história, que foi bastante modificado. Falta ao filme o que o romance tem de sobra: detalhes que, sob um olhar mais atento, são primordiais. A boa notícia é que, assim, pode-se ver o longa antes e, ainda assim, descobrir muitas outras coisas ao ler o livro. Este, sim, imperdível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário