Comer é uma necessidade vital. Sexo é uma necessidade vital. Além de vitais, são prazerosas também. Há quem diga que o homem, e só ele dentre os seres vivos, foi capaz de transformar as duas atividades mais essenciais para a sobrevivência em prazer: alimentar-se e reproduzir-se. Então, é perfeitamente possível (e, às vezes, desejável) que comamos e façamos sexo por deleite. Talvez daqui nasça (ou se explicite) o mal contemporâneo mais pertinente e, provavelmente, mais contundente, que seria a dificuldade de lidar com desejos que surgem de necessidades meramente fisiológicas.
Assim como a fome, não se pode evitar o tesão; apesar de que se possa reprimi-lo mais fácil e eficazmente. E há mesmo quem viva uma vida sem sexo, quando viver sem comida é impossível. Mas acho que o que inquieta mesmo é essa dualidade entre necessidade e prazer. Necessário aqui é o indispensável, o inevitável, que não pode ser diferente do que é. Do mesmo modo, entende-se por prazer a sensação agradável que resulta da atividade satisfeita, o divertimento, a alegria.
As duas atividades em questão, assim, são indispensáveis: a vida não pode ser sem elas. Qual o problema no divertir-se com elas? Nenhum. Ao contrário!
Na minha opinião, o problema é, na verdade, o não divertir-se. Mais: é o não poder divertir-se. Mais (e pior) ainda: sentir culpa por se divertir comendo e/ou fazendo sexo. Daí vêm os distúrbios de alimentação e os relacionamentos malogrados, as fontes das principais queixas ouvidas desde os botecos até os consultórios médicos, passando pelos salões de cabeleireiros e programas de televisão. São dietas, remédios, tratamentos, discussões, técnicas alternativas, mudanças de hábitos... tudo para aprender a sentir prazer! Tudo para conquistar a soberania sobre si mesmo, enquanto a resposta talvez não esteja em ganhar o controle, mas em perdê-lo...
Um comentário:
"Não posso dar ao prazer qualquer valor positivo, porque o prazer parece-me interromper o processo imanente do desejo; o prazer parece-me estar do lado dos estratos e da organização; é no mesmo movimento que o desejo é apresentado como submetido de dentro à lei e escandido de fora pelos prazeres; nos dois casos, há negação de um campo de imanência próprio do desejo."
[DELEUZE, Gilles. Désir et plaisir. Magazine Littéraire. Paris, n. 325, oct, 1994, pp. 57-65.]
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