Acaba de ser lançado O escafandro e a borboleta (Le scaphandre et le papillon - França/EUA, 2007), do diretor Julian Schnabel. O roteiro de Ronald Harwood é baseado no livro homônimo de Jean-Dominique Bauby, jornalista e editor francês da revista Elle. Aos 43 anos, Bauby sofre um acidente vascular cerebral que deixa todo seu corpo, com exceção de seu olho esquerdo, imobilizado, apesar de ainda gozar de plenas faculdades mentais. Ele padece de uma condição rara conhecida como Síndrome Locked-In. Apesar disso, Bauby dita, letra a letra, seu Le scaphandre et le papillon piscando o olho esquerdo quando a pessoa que toma suas notas diz a letra requerida.
O filme (bem como o livro) narra as sensações de Jean-Dominique preso a seu próprio corpo. A princípio, o espectador é convidado a experimentar a angústia desde o lado de dentro. As primeiras cenas nos fazem ouvir a voz interior do jornalista e a câmera toma o lugar de seu olho que é a única ligação com o exterior. Estamos presos em seu escafandro também. À medida que Bauby vai se familiarizando com sua nova condição e aprendendo a lidar com ela, também o espectador vai saindo de dentro dele e o foco passa às relações com o mundo. Então ele decide ditar seu livro, que se tornou sua forma de sair do casulo. Bauby faleceu de pneumonia 10 dias após a publicação de Le scaphandre et le papillon.
O jornalista levanta a questão de como se dá a relação entre interior e exterior. Se o mundo é o que percebemos dele através dos cinco sentidos e como agimos nele, o que dizer de uma experiência em que o ambiente é detectado apenas pela visão e pela audição e em que não se pode atuar? Estímulos ópticos e sonoros fazem pessoas, objetos e idéias entrarem, mas dificilmente se consegue fazer coisas saírem. Bauby dita suas memórias do cárcere como forma de se fazer ouvir, mas será que seria necessário se ver impossibilitado para querer agir no mundo? Seria preciso se ver preso consigo mesmo, condenado à solidão interior, para (re)avaliar conceitos e posturas em relação aos outros?
Há muitos escafandros vestindo poucos escafandristas de fato, já que estes têm como objetivo desbravar águas profundas, desconhecidas, obscuras.
2 comentários:
entendia - antes desse filme - o escafandrista apenas como aquele que sempre chega tarde demais. nas capas dos jornais franceses, do começo do século XX, de tempos em tempos apareciam eles como heróis, mas sempre chegavam tarde demais. chegavam quando o navio já tinha afundado. quando Chico lembra dele, ele chega tarde demais - mas chega.
o escafandro como limitador nunca havia me passado pela cabeça. sempre o vi como potencializador do alcance humano. mas no final sim, limita o movimento humano. transforma o homem em coisa limitada e potencializada.
o que é triste no final é que o escafandrista sim, sempre chega tarde demais...
beijos!
(rá! sou padrinho desse blog ein!)
O escafandro marca a distinção invariável que há entre o homem e o oceano, que não é e nunca será seu meio.
No meu caso, não tinha me ocorrido que ele chegava sempre tarde demais. Pensando em navios em perigo, certamente os escafandristas se atrasavam, mas tinha em mente o papel desbravador deles. As águas profundas como metáfora do desconhecido e esse homem, ainda que encapsulado, trazendo a luz.
(Sinta-se, com toda certeza, o padrinho da cria!)
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